As alfinetadas de Mourinho ao Chelsea são puro recalque

Eu amo José Mourinho. Considero o Special One mais como um personagem do que treinador. A grosso modo, Mourinho é como o nosso Luxemburgo. Mesmo arrogante, o português concede entrevistas hilárias. É provocativo. Vive o futebol à sua maneira, gostem ou não.


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Acontece que, desde seus tempos de Stamford Bridge, Mourinho geralmente se perde dentro do próprio personagem e tenta criar polêmicas e situações desnecessárias - o clássico desejo de quem quer ver o circo pegar fogo. Desta vez, as alfinetadas do treinador tiveram como destino, ainda que indiretamente, Antonio Conte e companhia.


Ao invés de destacar a bela performance de seus jogadores no triunfo diante do Leicester City, Mourinho tirou alguns minutos para provocar a imprensa e o ex-clube. 



"Meu time está jogando muito bem. Mas por muitos, muitos anos na minha carreira, e especialmente na Inglaterra, onde meus times sempre foram dominantes, mostrando forma defensiva fenomenal e fortes contra-ataques, eu tinha que ouvir, semana após semana, que isso nunca era o bastante, apesar de eu ter sido campeão três vezes.


Agora, porém, parece que nesta temporada de repende tornou-se algo fenomenal atuar de maneira defensiva, e contra-ataque agora é arte. É incrível como as coisas mudaram na Inglaterra."



Mourinho não está completamente errado em algumas de suas colocações, mas está equivocado ao achar que o time de 2014/15 joga igual ao Chelsea de 2016/17.


No tempo em que comandou os Blues, Mourinho passou longe de ser um treinador retranqueiro. Basta analisar a campanha do título em 2014/15 para ver a quantidade de vitórias por mais de dois gols de diferença, além de goleadas, por exemplo, contra Swansea e Everton pela Premier League e Schalke 04 pela Champions.


No entanto, quando Mourinho realmente optava pela retranca, a brincadeira do "park the bus" ficou impregnada e vitórias pelos placares de 1 a 0 e 2 a 1 eram desvalorizadas pela imprensa em geral - como se fosse válido apenas vencer por mais de três gols.



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Algumas temporadas se passaram e Antonio Conte chegou para tomar seu lugar. Talvez por não ter superado o atropelo em Stamford Bridge e não suportar a ideia do seu ex-clube estar em boas mãos, Mourinho tenta desprezar o trabalho do italiano, como se a sequência de vitórias consecutivas e o excelente momento fosse fruto apenas pelo sistema defensivo e os contra-ataques letais.


Antes de mais nada, é preciso quebrar o senso comum que jogar com três zagueiros significa, necessariamente, priorizar o sistema defensivo. No caso do Chelsea, quem se beneficia desse sistema são nossos alas - Moses e Alonso -, que têm sido peças fundamentais nesta temporada. Além disso, atuar com Matic e Kante está longe de ser retranca. 


Matic, em 2014/15, acumulou apenas três assistências em 36 jogos pela Premier League. Nesta temporada, com menos quantidade de partidas, o volante sérvio já tem o dobro de passes para o gol. Kante, especificamente no duelo contra o United, deixou bem claro que é muito mais que um volante marcador ao destroçar a defesa adversário e anotar seu primeiro gol com a camisa dos Blues.



Aceitem ou não, o Chelsea tem jogado muita bola. São inúmeras vitórias acompanhadas de um futebol bonito, organizado e com objetividade. Já está na hora de entender que o futebol não se faz só de atacantes e meias habilidosos - o conjunto é sempre o fator determinante. Não é à toa que Marcos Alonso é o defensor com mais números de gols neste momento do campeonato.


No fundo, Mourinho sabe que o Chelsea de Antonio Conte tem encantado nesta Premier League. O fato da imprensa não elogiá-lo como gostaria é por conta de seu comportamento arrogante. O italiano, por sua vez, chegou na paz e, pelo mérito de seu trabalho, tem sido destacado pela imprensa.


Mourinho, você é genial, mas dessa vez passou vergonha. Deixe o recalque de lado. Você é melhor que tudo isso.