Guest post: a ponte aérea Chapecó-Barcelona

por Marcelo Onofre, torcedor

Marcelo Onofre/Arquivo pessoal
Marcelo Onofre/Arquivo pessoal

Chapecoense: 43 anos de histórias compartilhadas


Eu não teria como falar do jogo da Chapecoense x Barcelona sem ao menos citar, nem que seja por duas ou três palavras, a Série D, a Série C, os finais de semana em que estes jogos assistíamos no estádio, ou sintonizávamos a rádio AM para ouvir a partida. Ver a Chapecoense na TV? Além do estadual, era apenas um sonho para nós. A série B e a ascensão meteórica no cenário futebolístico nacional? Quase nem em sonho essa cena seria real. A Série A e nossas participações memoráveis, um tanto quanto sofridas claro, mas com muito orgulho e amor. A Sul-americana e nossos sonhos começando a se tornar realidade? Como não citar nossos guerreiros, como não começar agradecendo a eles que tragicamente se foram? Como não se emocionar lembrando? Foi um longo e tortuoso trajeto até esse impensável jogo...


O jogo? Ah, o jogo, é claro...


Antes de tudo, devo explicar que fiz uma promessa para mim mesmo antes da viagem: por um dia, esquecer do nosso campeonato de agora, esquecer do que a Chapecoense está passando e ir somente com o pensamento no jogo contra o Barcelona. Somente na celebração e no motivo pelo qual ela estava acontecendo, os nossos guerreiros. 


Comecei minha viagem na sexta-feira (4), saindo do Brasil para Portugal, onde encontrei meu pai, locutor que vive a Chapecoense há décadas, e ficaríamos por lá até na segunda-feira. Passamos o fim de semana maravilhados, ainda tentando entender o que seria esta partida, pois o último jogo que havíamos assistido juntos foi o da semifinal da Sul-americana, a última partida daquele time em Chapecó antes da tragédia. Histórias antigas sobre a Chapecoense que meu pai me contava enchiam meus olhos de lágrimas - eu sabia que para ele também era importante esta partida. 


Na segunda-feira (07), partimos de Lisboa para Barcelona (vale citar que eu havia acordado no domingo às 10h, no horário de Lisboa, e que não havia dormindo antes da viagem, tamanha era a ansiedade para estar no Camp Nou). Quando chegamos em Barcelona e fomos almoçar no entorno do estádio, encontramos além do povo da cidade muitos estrangeiros, pessoas da Inglaterra, Hungria, Alemanha, China, Japão e principalmente França e Bélgica. Conversando com a maioria destas pessoas, ficávamos eufóricos quando diziam que haviam viajado somente para ver a Chapecoense jogar. Ali tivemos a certeza que hoje somos a Chapecoense do Mundo. Lembro que agradeci a todos com quem tive a oportunidade de conversar, pelo carinho e por este gesto de afeto para com nosso povo.


Quando fomos ao estádio, e que estádio, sentimos ainda mais o clima do jogo, a fraternidade, o amor e a vontade das pessoas de ver a Chapecoense. Viramos celebridades, fardados com o nosso Manto Sagrado! Muitas pessoas pediam para tirar fotos conosco, com as camisas da Chapecoense - quem sabe quantas dessas pessoas queriam ter as mesmas recordações da Chape? Que festa fizemos, momentos para guardar para sempre.



Dentro do estádio, vivenciamos uma celebração da vida, uma celebração do amor. Quando Ruschel, Neto e Follmann entraram em campo, as lágrimas apenas rolavam. O pensamento ia para aqueles guerreiros que lá de cima estavam celebrando e se emocionando com aquela partida assim como nós. O placar foi 5x0 para o Barcelona. Mas para quem estava ali, um Camp Nou inteiro, o resultado estava em segundo, terceiro plano. TODOS, TODOS, TODOS lá dentro estavam esperando um gol da Chapecoense. A cada gol do Barcelona havia comemoração, mas tenho certeza de que não o mesmo caso a Chapecoense tivesse feito um.


Foram poucas chances de balançar as redes, mas que nos levaram à loucura a cada vez. Cada defesa do Elias era uma vibração, seu nome era cantado por alguns espanhóis, húngaros e belgas que estavam atrás de mim na arquibancada. No final da partida, quando Arthur Moraes pegou o pênalti, foi como se a Chapecoense tivesse feito um gol. O estádio todo se levantou e vibrou.


Depois que acabou o jogo, veio o sentimento de que um sonho se realizou. Que a maior viagem da minha vida estava chegando ao fim, mas com a certeza de que aproveitei cada segundo, cada momento e cada sentimento que tive naqueles dias. Não tenho dúvidas que representei, por um momento, cada cidadão chapecoense, cada colega de arquibancada que também queria estar ali. Senti que estava lá para torcer por eles, e assim fiz. 


A Chapecoense foi cantada, celebrada e amada pelo mundo todo em Barcelona.


A Chapecoense hoje é e por muito tempo será o clube do mundo, o segundo time de muitas pessoas - gente que topa viajar centenas de quilômetros só para estar ali e sentir o que nos habita a tantos anos. 


Por um jogo, a Chapecoense teve a maior torcida do mundo. E no que depender do coração do povo chapecoense, seremos todos.


A Chapecoense é minha, a Chapecoense é nossa, a Chapecoense é do mundo.


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