As duas entrevistas coletivas de Alan Ruschel

Na última quinta-feira (3), a assessoria de imprensa da Chapecoense promoveu uma entrevista coletiva com o presidente Maninho, o embaixador Follmann e o atleta Alan Ruschel. O objetivo era de divulgar oficialmente a agenda internacional do clube e detalhes sobre a sequência de jogos aqui e fora. Outro momento foi a manifestação de Ruschel sobre seu retorno aos campos.


A coletiva que Alan concedeu no dia 17 de dezembro, um sábado de manhã, não parava de voltar à memória. Menos de três semanas haviam se passado desde o acidente e toda a dor ainda era extremamente recente. Ainda não havíamos descoberto como nos acostumar com o crepitar da dor, brasa que ainda queima. Naquela manhã, porém, o milagre se mostrou humano.


Alan se apresentou na Arena Condá dentro de um silêncio que também era nosso. Ao chegar, tinha o olhar vago, as cicatrizes do rosto fortemente vincadas pelo pesar. Parecia uma relíquia muito frágil. Assim como nós, era tomado pela mais absoluta dor simplesmente ao lembrar dos amigos que perdeu na tragédia. Palavras fugidias e o choro que começava do nada. A sala de imprensa chorou com ele.


Até aquela entrevista, seguir em frente era uma ideia abstrata para muitos torcedores. Talvez Alan não saiba disso, mas as palavras simples que disse naquele dia devolveram a esperança ao coração de muita gente. Ninguém ainda sabia o que seria de 2017, mas ele já havia cravado: queria voltar a jogar e estava completamente entregue à sua recuperação. Chegou a afirmar que voltaria em seis meses.


A entrevista coletiva que havia começado com ares de desespero terminou em sorrisos. Todos retornamos à morada do nosso coração quando Alan disse que pisar novamente na Arena Condá era como voltar para casa. Quando nos lembrou de valorizar as coisas simples da vida - da família ao feijão com arroz. Quando disse que queria levar o ambiente daquela temporada para os jogadores que viessem. Dentro de sua fragilidade, ele foi forte como uma rocha.


Nesta semana, o papo foi outro. Não era mais um sobrevivente falando sobre uma experiência traumática, era um atleta falando sobre o que ama fazer. Era um homem falando sobre a vida. Quando falou sobre sua reestreia, Alan era a personificação da confiança que sua torcida luta para manter acesa desde o início da temporada. Ainda que o momento da Chapecoense não seja bom, não houve quem ficasse imune àquele entusiasmo. Alan falou que se sentia como um moleque prestes a entrar em campo pela primeira vez, e a sala de imprensa sorriu com ele.


O amistoso contra o Barcelona, o jogo-treino contra o Lyon, a Suruga Cup, o amistoso em Roma. Por mais confuso que seja deixar o Brasileirão de lado por alguns dias, precisamos respirar fundo. Agora temos uma agenda internacional, e ela há de ser uma prece: que nos mantenhamos sempre resilientes para contar a nossa história pelo mundo, e cada vez mais fortes para continuar a escrevendo.