Túlio de Melo, Sul-Americana e herói no gol; estamos prontos para recomeçar

Eu não conheço muito bem o Túlio de Melo. Encontrei com ele algumas vezes, por ocasiões jornalísticas, coletivas e afins. É um cara tranquilo, fala bem, é sempre muito educado. É um ótimo jogador. Mas não sei muito mais do que isso. Nunca tive a chance de conversar com o Túlio de Melo, atacante, camisa 10, nem com o Túlio, pessoa física, ser humano que não nasceu de chuteiras. Eu gostaria muito de conversar com qualquer um deles. Sobre o que ele pensa de ter vivido a Chapecoense de duas maneiras tão diferentes. Sobre como a tragédia impactou a vida dele. Até imagino a resposta, mas não sei de fato.


A questão é que ontem à noite, antes de dormir, depois da classificação sobre o Defensa y Justicia na Sulamericana, me peguei pensando no Túlio e nessa conversa que nunca existiu. Em como será que ele estaria se sentindo depois daquele gol, que insiste em passar pela cabeça a cada poucos minutos. Na metade do primeiro tempo, Reinaldo cobrou o escanteio e Túlio de Melo cabeceou.


Será que no pensamento dele esse gol também se mistura à cena do gol contra o Libertad, em 2015?


Também fiquei pensando em Jandrei e na responsabilidade que ele carregou ontem. Pênaltis e sulamericana recendem a Danilo, suas comemorações no gramado, e levantam expectativas de concreto. Também pensei em Apodi. Em Camilo e Guto Ferreira lá no Internacional. Em Tiago Luís. Neto. Se a minha cabeça já estava dando voltas, imagina a deles. Me perguntei se eles estavam vendo o jogo e pensando o mesmo. Lembrei de Cleber Santana. Gil. Thiego. Dener. Rangel.


Sirli Freitas/Chapecoense
Sirli Freitas/Chapecoense

Em 2015, também foi Túlio de Melo o autor do gol que nos levou aos pênaltis contra o Libertad


Ontem não consegui ficar no estádio até o fim do jogo. A recordação me deixou exausta. Lá em 2015, o jogo contra o Libertad marcou um momento de transição na Chapecoense, que saía de uma situação insustentável para um tipo de recomeço, mais simples, mas mais inspirado. Foi Túlio de Melo quem marcou o gol que levou a Chapecoense aos pênaltis contra o Libertad. Foi bem no comecinho do jogo, em uma cobrança de falta do CS88. Costeamos o jogo até o fim do segundo tempo e aliás, o tempo realmente pareceu parar ao início da disputa dos pênaltis. Bruno Rangel marca. Rodrigo López erra. Neto marca. Jorge González também. Cleber Santana marca. Suspense. Fabián Balbuena marca. Gil também. Sérgio Aquino marca. Chega a vez de Tiago Luís. A cena se congela. Todo barulho é silêncio, e o silêncio é ensurdecedor. É possível sentir a Arena tremer, é possível tocar a ansiedade com os dedos...


Tiago Luís marca.


Não existe mais Arena Condá. Não existe mais torcida, camisa, cor. Pensamento. Tudo se torna o nada. E por um milésimo de segundo, somos todos uma coisa só. Somos todos um sentimento único, inominável, desconhecido. Em um momento, apenas pairamos no universo.


Foi assim que escrevi em 2015, e foi assim que senti a cena retornar. Da arquibancada, foi o mesmo silêncio tenso, úmido, sufocante. A intensidade daquela disputa de pênaltis foi exatamente a mesma. Foi mais um marco na trajetória de recomeço que a Chapecoense vem vivendo desde o começo do ano. A classificação contra o Defensa y Justicia vem para nos lembrar da vida, de quem somos de verdade, do jeito que se joga bola em terra de Condá. E Tulio de Melo sabe muito bem que jeito é esse.


Depois do jogo, ouvi de uma torcedora - talvez uma das mais corajosas que eu conheça - uma frase que traduz muito do sentimento que nos uniu ontem: "é estranho, mas eu sinto que de alguma forma estamos continuando de onde paramos". É isso. Túlio de Melo, com sua cambalhota de comemoração, virou nosso mundo de volta para o lado certo. O que estava do avesso, não está mais. Estamos definitivamente prontos para deixar a casa na mais perfeita ordem.