Que bicho te mordeu, Chape?

Sirli Freitas/Chapecoense
Sirli Freitas/Chapecoense

'Pensa-rápido', professor: o que está rolando?


Até o meu último texto aqui no Vamo, Verdão, postado logo após a eliminação na Copa do Brasil, a Chapecoense era campeã catarinense com certos méritos, estava classificada dentro de campo para a segunda fase da Libertadores (eliminada fora), e havia começado o Campeonato Brasileiro com duas vitórias em três jogos — estava dando um banho na tão cobrada reestruturação após a tragédia, enfim.


Depois da eliminação para o Cruzeiro (link), a Chapecoense teve cerca de 650 minutos de bola rolando, distribuídos em sete jogos, nos quais levou 18 gols e marcou apenas 10. Na prática, contabilizando duas vitórias e cinco derrotas, o que se traduz em apenas seis pontos na tabela.


Eu não sei em que momento, em que lugar ou o motivo, mas a massa desandou. Em três semanas, o elenco desaprendeu a jogar, Vagner Mancini perdeu o encaixe que havia conquistado no time, a harmonia do grupo balançou, a torcida perdeu a paciência, as falhas de comunicação interna vieram à tona e o Brasil inteiro passou a se perguntar: afinal de contas, o que aconteceu com a Chape?


A história do elenco desse ano já é conhecida por todo mundo: time montado às pressas, com peças cedidas e emprestadas daqui e dali, algumas pinçadas especialmente para a temporada, e um técnico escolhido dentro de um perfil que fosse adequado ao que existia antes e, claro, possível para uma temporada infinita. Mas é evidente que a Chapecoense se encontra frente a frente com sua limitação: na prática, foram testadas tecnicamente todas as combinações possíveis dentro do esquema proposto por Vagner Mancini. A grande questão que permeia a má fase é a pouca efetividade desse esquema em específico diante de adversários com "envergaduras" muito diferentes.


Em todas as derrotas até agora, e mesmo na vitória sobre o Vasco, a Chapecoense demonstrou pouco poder ofensivo, uma vez que não tem consistência no meio de campo para colocar a bola no chão e armar jogadas. Prova disso é o lance que se provou a maior "carta na manga" até agora: quase todas as bolas que chegam na área são originadas na força braçal de Reinaldo, que cobra laterais com afinação perfeita e, mesmo que precise correr de volta para o outro lado do gramado, consegue manter uma cadência bem OK para apoiar o ataque. 


Exceto isso, há um grande vão entre a linha de defesa e a "armação de jogadas" - entre aspas, pobre coitada, existe em tese apenas. A zaga espaçosa demais se tornou quase uma marca registrada da Chapecoense (como era a marcação antigamente). Sem um meio capaz de desacelerar contra-ataques, a defesa não tem tempo hábil para voltar correndo e se organizar - i sso tem causado uma desestabilização imensa: a Chape só consegue se acalmar e crescer sobre o adversário do segundo tempo em diante. Quando temos a posse, não temos a inteligência necessária. Quando temos a calma e a inteligência, não conquistamos a posse. E aí sim, qualquer adversário faz a festa.


Desgraçadamente, a falta de gente nesse espaço custa caro. Mais desgraçadamente ainda, o elenco gordinho que a Chapecoense tem em mãos não consegue suprir essa falta. E para completar o desgraçamento da coisa, não se pode deixar de lado que em 2016 tínhamos um elenco muito mais limitado e não trouxemos desaforo pra casa. 


A torcida já demonstrou estar desesperada por mudanças, seja no elenco ou na comissão técnica, e cabe outra crônica só nos impropérios que essa cobrança tem trazido à tona. Mas não se pode tirar a razão: não é possível que a falta de futebol seja tão estanque. Ninguém desaprende a jogar, ninguém perde o encaixe em campo assim de repente, e a Chapecoense já provou que não é simples assim balançar a harmonia quando se tem um grupo forte. A questão é a própria Chapecoense lembrar disso. Nada mais.


Que o retorno à Argentina para mais uma Sul-Americana represente a volta da qualidade e do respeito coletivo.