Chapecoense x Cruzeiro: a inevitável ponte 2012-2017

ESPN.com.br | Cruzeiro elimina Chapecoense e será intruso em Copa do Brasil 'padrão Libertadores'


Eu tenho uma paixão particular por esses jogos da Chape que fazem a gente brincar com o tempo e lembrar de alguns momentos bem especiais da nossa história, que a gente deixa no reservado da memória e o destino se encarrega do resto.


Me lembro bem do jogo contra o Cruzeiro na Copa do Brasil de 2012. Foi nosso último ano na Série C, a propósito, mas quando esse jogo aconteceu, o Catarinense nem tinha acabado. Depois de passar pelo São Mateus na primeira fase, Itamar Schulle tinha a missão de fazer uma apresentação de gala da Chapecoense, mas criou um reboliço no meio de campo e deixou João Paulo sozinho no ataque, abandonado na grande área, esquecido em frente ao gol de Fábio. Tanto fez que o único gol da Chapecoense no jogo quem fez foi o Souza, nosso zagueirão - que quase não jogou por causa de uma suspensão em Santa Catarin. Depois foi o Walter quem empatou.


Até hoje me pergunto se a Chapecoense deixou de ser a rainha da bola aérea depois que o gramado da Arena Condá ficou bom, hehe. 


Mas o que me faz lembrar desse jogo não é o 3-6-1 do Schulle, nem o gol de cabeça do Souza, menos ainda o do Walter. O que ficou pra mim foi o jeito como nós vivemos esse jogo. Depois que vencemos o São Mateus na Arena Condá por 3 x 1 e nos classificamos para a segunda fase, foi um siricotico geral em Chapecó. Receber o Cruzeiro aqui, meu-deus-do-céu, a Chape está ficando grande. Nós daqui, com Rodolpho, Dema, Diogo Roque e Rafael Mineiro, e eles de lá com Fábio, Marcelo Oliveira, Montillo e Wellington Paulista.


Ainda tenho guardado meu ingresso da geral. R$ 60, que a carteirinha de estudante do terceiro período de Jornalismo me aliviou para R$ 30. Muito dinheiro em comparação aos costumeiros R$ 20 do Campeonato Catarinense. O dia do jogo - que saudade desse dia - foi de uma chuva medonha em Chapecó. Todo mundo com medo de que estragasse o espetáculo, e à noite o céu se abriu! O brilho no olho da nossa torcida, a bateria da Raça Verde, a arquibancada leste ainda no jeito do Condá velho, o quanto aquele empate foi amado.


E no jogo de volta ainda ainda rolou um deus-nos-acuda em certo ponto porque a Chapecoense encarava o Cruzeiro no dia 18 lá em Minas Gerais e não podia fazer feio, mas já no dia 22 disputava o jogo de ifa semifinal do Campeonato Catarinense contra o Avaí na Ressacada. Imagina só, tivemos que poupar o Athos e o Leonardo Jesus! De quebra, Nivaldo ainda estava lesionado!


Foi encantador. 


Foi um perrengue na época, uma loucura, uma correria, mas hoje é uma delícia ter essa recordação em mãos. Série C, Santo André, Macaé, Brasiliense. Público que raramente saía da faixa dos quatro, cinco mil. É de aquecer o coração lembrar de como faz tão pouco tempo desde esse jogo e de como nossas prioridades eram outras - não menores, porém. Era apenas como a nossa realidade funcionava na época, sofrida como o poema de Camões: fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente, um contentamento descontente, uma dor que desatina sem doer. Tão contrário a si mesmo, o amor, né? 


Em 2012, a desclassificação da Copa do Brasil doeu um pouquinho porque a gente sabia, mesmo que tentasse negar, que não tinha colhão para ir muito mais além. Mas foi tudo bem, afinal, vida que segue. E era o Cruzeiro. Dessa vez foi diferente. Dessa vez foi o Cruzeiro, que já passou umas quatro vezes pelo Condá. Não que isso o tornasse um adversário mais fácil, de forma alguma. Mas pesou o fato de que a Chapecoense não é mais o time da Série C e tinha totais condições para passar de fase. A Copa do Brasil não é mais um monstro para nós e ainda não avançamos nela.


Nem Cruzeiro nem Chapecoense foram brilhantes. Houveram boas chances desperdiçadas dos dois lados, assim como houveram falhas táticas dos dois lados. Sobre a confusão do final do jogo, até me surpreende as pessoas ainda perderem tanto a razão com a arbitragem brasileira. Nada que se diga agora muda o fato de que estavam todos de cabeça quente, e quem nunca se arrependeu de algo que falou no calor do momento, que atire a primeira.. pilha?!


No domingo vamos enfrentar o Cruzeiro mais uma vez, agora pelo Campeonato Brasileiro em uma condição completamente diferente. Não sei quanto aos mineiros, mas para a Chapecoense é também uma oportunidade de mostrar um comportamento melhor, inclusive fora de campo. E não falo da diretoria apenas.


Eu ainda prefiro a lembrança de 2012.