Sobre amor, ódio, a Chapecoense e o Catarinão

Há pouco mais de um mês, tive a oportunidade de trabalhar em uma produção de TV estrangeira aqui em Chapecó. Foram dez dias de muitas entrevistas e, lá pelas tantas, em uma reunião quase no fim da ‘viagem’, algúem disse que estava perplexo por ter ouvido duas respostas que se repetiam em todas as entrevistas.


Primeiro, o fato de que a maior recordação sobre a temporada de 2016 era aquela defesa fabulosa de Danilo nos minutos finais do jogo contra o San Lorenzo. Quase todas as fontes narraram esse lance com lágrimas nos olhos, mostrando uma grande reverência por todo o significado que aquela classificação carregava - o êxtase vivido em Chapecó desde o apito inicial da partida até as primeiras horas do dia 29 de novembro.


A segunda questão, contudo, foi a que o deixou mais intrigado. Quando perguntados se sentiam algum tipo de ódio pelo piloto, pela companhia, ou por qualquer “responsável” pela tragédia, a resposta era em geral traduzida em poucas e simples palavras: “eu me sinto mal, me sinto triste, me sinto arrasado, mas não sinto ódio”.


Eu não tinha reparado nisso até aquele momento, mas fez todo o sentido quando meu colega estranhou, e aí parei para pensar sobre isso. Desde o dia do acidente, me vi frente a frente com uma gama imensa de sentimentos. Tristezas processadas de diversas maneiras, curiosidade, apreensão, compaixão, resiliência. Mas em nenhum momento senti que a nossa torcida emanasse algum tipo de ódio. O abraço familiar da arquibancada não afrouxou. Ganhou mais braços, ganhou a umidade de muitas lágrimas, mas permaneceu firme.


ESPN.com.br | 'Nunca esqueceremos': heroica, Chape joga mal, perde, mas fatura bicampeonato estadual inédito


Acordei me sentindo mal no domingo. Estava ansiosa e cogitei ficar no radinho de pilha, em casa. Não que o tempo estivesse fechado, mas isso de acordar com uma inquietude em dia de jogo vem acompanhando a nova temporada e não é só a mim. Mas não é bem assim, esquecer de si mesmo em dia de final. Falou mais alto a coragem e fui - borboletas no estômago e, por acaso, a conversa que tivemos sobre o sentimento dos chapecoenses dando voltas na cabeça.


O jogo foi bem mais sofrido do que precisava. Foi de uma apreensão tão intensa que tornou tudo novidade. E nessa de novidade, quando Tulio de Melo entrou no lugar de Wellington Paulista, me peguei compartilhando com algumas amigas o fato de que, em todos os títulos da Chapecoense, o gol foi feito por alguém saído do banco. Jaime em 1977, Marquito em 1996, Fabio Wesley em 2007. Aí, em 2011, gol contra de Carlinhos Santos - mas com a cobrança de falta de Nenén, que entrou no segundo tempo. Bruno Rangel fechou a senda em 2016. Expectativa total em Apodi e Tulio de Melo, afinal.


Não aconteceu. O gol de honra, o gol do banco, como queira, não aconteceu. Ficamos na vantagem do regulamento pela melhor campanha e esse detalhe tem raiz em uma mudança total de paradigma.


Não foi um único gol que salvou o campeonato. Foi a força coletiva.


A Chapecoense de 2017 é feita exatamente do mesmo material que a Chapecoense de 1973-2016, mas tem uma forma completamente diferente. É feita de uma força inominável que nos acompanha desde a gênese, feita de um poder agregador, de representatividade, é feita do valor de gente de coragem e verdade. Feita de cabeças erguidas, pés no chão e a vontade de fazer diferente. Mas o que antes tinha forma de mística, de sonho e caminhos sinuosos, hoje tem forma de honra, de saudade e de realização.


Fomos capazes de transformar uma dor paralisante em muita fé, de transformar a revolta em abraço e de transformar a nós mesmos - nos reinventamos dentro da nossa história. E dentro dela jamais vai haver espaço para o ódio se criar. Seja de quem for.


Menos de seis meses atrás, só o que tínhamos nas mãos eram corações partidos. A dois dias de completar 44 anos, a Chapecoense é Campeã Catarinense pela sexta vez. O nó da minha garganta era a saudade de invadir a Getúlio Vargas em comemoração. Paz, enfim. 


Guilherme Hahn/Agif/Gazeta Press
Guilherme Hahn/Agif/Gazeta Press

Os responsáveis pela sexta estrela