Chape na Liberta: para voltar a sorrir com o coração

Eu não consigo parar de ver. Se fecho o vídeo, a cena se repete na imaginação.


Pachencho lotado, barulho de arquibancada que vaza na transmissão, ansiedade ocupando cada cadeira de bar em Chapecó. Verdão jogando o fino.


Primeiro, quase lá na linha de fundo, Reinaldo vai cobrar uma falta. A câmera fecha nele, arfante, concentrado, com o olhar fixo e um sorriso discreto, querendo aparecer. Ele respira fundo, a câmera abre a tempo de mostrá-lo tomando um bom espaço e imprime a força do mundo na perna esquerda. A bola viaja em uma curva tão leve quanto perfeita. Algumas cabeças sobem na área. Inúteis... a bola já tinha entrado! 


A câmera se volta para o banco de reservas e lá estão eles, todos de braços abertos, a euforia marcando o rosto. Camisas verdes em diversos tons correndo em direção ao campo, e a imagem se completa: dentro das quatro linhas, as camisas brancas fazem um círculo, se abaixam e apontam para o céu com as duas mãos. É deles, é deles!


Bem depois, no contra-ataque, João Pedro viaja com a bola pela lateral direita. Arthur Kayke sai de lá da frente para dar assistência. Mas João Pedro, sem hesitar, abre a bola com precisão na diagonal para Luiz Antônio, livre da marcação na meia lua. Vega se esticou o quanto pode. Sem chance. Luiz Antônio, na maior moral do mundo, sem pensar demais, bateu e perna direita, bem no cantinho. No vídeo, quarenta e cinco segundos de braços e abraços hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim. Irmãos no que concerne à camisa verde e branca. Comemora, família! Que o mérito de um é o mérito de todos! Comemora que essa estreia foi a coisa mais linda que poderia acontecer!


Juan Barreto/Getty Images
Juan Barreto/Getty Images

Uma das cenas mais simbólicas de toda a fase de reconstrução da Chapecoense


Nem se tivesse ensaiado antes, a Chapecoense teria feito uma estreia tão completa na Libertadores, tão linda, tranquila e cheia de simbolismo como foi. Do medo invisível sobre a longa viagem até a cisma com a formação de Vagner Mancini, tudo trouxe uma resposta imediata às mãos que nos foram estendidas de novembro até aqui: "valeu a pena e vamos fazer continuar valendo". Para quem duvidava, a escalação da Chapecoense com Girotto, Moisés e Luiz Antônio no meio de campo se mostrou funcional. Embora tenha deixado a marcação aberta em alguns momentos, a agilidade das ligações deixou muito claro o quanto já ganhamos de entrosamento. O quanto já ganhamos de Apodis da vida, que provam todo dia merecer estarem onde estão. A Chapecoense da Libertadores funciona lindamente.


Foi excepcional ver que, mesmo com um esquema completamente diferente, a Chapecoense de hoje tem muitas semelhanças com a Chapecoense que se foi há três meses e pouco. Três meses e muito. Rostos e personalidades diferentes, mas com a mesma resiliência. A mesma força que nos movia antes. Agora, temperada pela saudade.


Se alguém ainda estava desanimado com a Chapecoense de 2017, a invasão verde e branca no gramado do Estádio José Encarnación Romero trouxe a tranquilidade e a euforia na mesma medida. Tranquilidade para erguer a cabeça, ter fé no futuro e voltar a sorrir de orelha a orelha. Euforia para preparar o grito de gol, lotar a Arena Condá no próximo dia 16, contra o Lanús e, quem sabe, ver todas essas cenas se repetirem muitas vezes.