O show tem que continuar

Buda Mendes/Getty Images News
Buda Mendes/Getty Images News

'Meu único remédio é vir aqui te ver'


Já era previsível, como esse texto que já nasce atrasado. Seria de uma imensa ingenuidade acreditar que o destino não voltaria a nos pregar mais uma de suas peças especialmente poéticas na data de ontem. E seria de uma ingenuidade ainda maior ignorar a forma como os acontecimentos se encadearam. Sinto que ontem encerramos mais uma das fases do luto que ainda nos envolve - às vezes mais evidente, às vezes menos, mas sempre ali. Nessa mistura de ausência e força de vontade, tudo ainda é muito abstrato, mas o show tem que continuar.


Ontem completamos três meses desde a tragédia de que tanto ainda temos a dizer. Era dia de Arena Condá e choveu uma barbaridade em Chapecó. A Chapecoense entrou em campo pela Primeira Liga, contra o Atlético Mineiro. Longe dos olhos, uma oportunidade para abraçar os amigos do Galo e agradecer pela força demonstrada na última rodada do Brasileirão do ano passado.


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Há algumas semanas, conversando com o diretor das categorias de base da Chape, Cézar Dal Piva, perguntei sobre o estado emocional dos meninos, que vêm levando a camisa da Chapecoense pelo mundo com uma responsabilidade rara de se encontrar em jogadores tão jovens. Ele me falou sobre a maturidade que todos ganharam nos últimos meses e usou uma frase que ilustra perfeitamente a fase do luto em que muitos de nós já se encontram: "A ferida vai estar sempre ali, o que a gente precisa é conviver com ela". É a verdade, afinal.


O início de 2017 por aqui, uma nova temporada e uma nova fase, tem tudo a ver com a essência da Chapecoense de verdade: com muita gente trabalhando duro, longe dos holofotes, para que pudéssemos inaugurar esse novo momento da melhor maneira possível. Talvez não com as melhores condições para entrar em campo, mas com a maior vontade e o maior respeito que fomos capazes de reunir. O futebol, caixa de Pandora que é, nem sempre permite que os números expressem isso - nas duas competições, até agora, foram quatro vitórias, quatro empates e duas derrotas. E é por isso que a nossa fé precisa ser ainda maior a cada novo compromisso.


Neste final de semana, a Chapecoense embarca para um desafio que representa o sonho de milhares de torcedores: a oportunidade de disputar a Copa Libertadores da América. Enquanto aqui encaramos Criciúma, Inter de Lages e Tubarão, vamos até ali para encarar Lanús, Nacional do Uruguai e Zulia da Venezuela. Trata-se de mais uma competição que vale muito, que não tem adversários fáceis ou confrontos simples, e que vai colocar todo o nosso esforço à prova mais uma vez.


Muito embora o prenúncio seja inquietante, de uma coisa precisamos nos certificar: não é e nunca será como foi passado. A saudade ficou e às vezes parece se amplificar no silêncio do Condá - é quando os olhos ficam cheios de lágrimas e o coração cheio de sentimentos inomináveis. Ficou também o sonho que precisamos levar até o fim. Com chuva, com saudade e com vontade, o show tem que continuar.


VAMO, VERDÃO!