Chape: a placa dourada do canal Cocada Roupeiro chegou

Matheus Sebenello
Matheus Sebenello

'Cocada Roupeiro - parabéns por superar a marca de 100 mil inscritos'


Ontem à tarde recebi a foto acima em um grupo de torcedores no WhatsApp. A placa de reconhecimento do YouTube pelos 100 mil inscritos no canal do Cocada já está em Chapecó.


Até hoje, eu não sei muito bem como a história do Cocada cruzou com a da Chapecoense. Mas sei de fato que o Cocada foi o primeiro a sacramentar, ainda antes do início da Sul-Americana, que a taça seria nossa. Ele não sabia muito bem como explicar como sabia disso, assim, palavra por palavra, mas não precisava também. Era muito fácil entender os argumentos de quem vivia o dia a dia da Chapecoense, de sentir o que ele sentia dentro do clube para ter uma certeza tão grande. 


Também não sei direito como foi que começou a história do Cocada nas redes sociais. Mas sei que a dedicação do Cocada com os vídeos e fotos postados no Twitter eram quase um serviço de utilidade pública para a torcida. A cada jogo, a organização dos bastidores era pauta garantida. Era através do trabalho dele que podíamos sentir um pouco do clima de família que sempre habitou o vestiário, um pouco do carinho mútuo que a equipe demonstrava, um pouco desse amor que compartilhamos - eles do gramado, nós do concreto.


O que eu sei, com certeza, é que não há quem não lembre da confiança que Cocada depositava na união do time, do amor que tinha pela esposa e da forma como se identificava com a torcida verde e branca. E como são infinitas as boas histórias que ficaram sob o escudo da Associação Chapecoense de Futebol, resolvi que essa, em especial, deveria ser contada.


Matheus Sebenello
Matheus Sebenello

Matheus, administrador do canal Cocada Roupeiro, com a placa que é, ao mesmo tempo, homenagem e relíquia do amigo que se foi


Matheus Sebenello tem 15 anos, é estudante e desde pequeno é torcedor da Chapecoense. Na companhia de seu irmão, começou a frequentar o Regional Índio Condá na mesma época que eu, em um ano não muito bom, ainda quando nem imaginávamos onde é que aquela loucura toda ia nos levar.


A amizade entre Cocada e Matheus não poderia ter nascido de maneira diferente: o primeiro queria contar sobre a rotina intensa dos bastidores do clube e o segundo queria ouvir. O assunto era sempre o mesmo. "Ele postava no Instagram muita coisa sobre a Chape e eu me interessei pelo trabalho dele. Começamos a conversar pelo Whats, eu pedindo informações do clube, e isso foi evoluindo. Tínhamos uma amizade fora da Chapecoense, dividindo sonhos e coisas do dia a dia", conta Matheus, que passou a ajudar Cocada na edição dos vídeos.


Cocada tinha tanta certeza de que a Chapecoense conquistaria a América que uma de suas brincadeiras no Twitter era uma promessa de que mudaria seu username de "Cocada Roupeiro" para "Utillero Alfajor". Quantas coisas seriam diferentes se o dia 29 de novembro de 2016 tivesse acabado de outra forma?


A ideia de criar um canal surgiu somente em novembro, como uma forma de manter o trabalho organizado e devidamente guardado depois de um hiato de Cocada nas redes sociais. Matheus deu tratamento especial aos vídeos, que ilustram a rotina do roupeiro na Copa Sul-Americana de 2015, em alguns jogos do Campeonato Brasileiro e, mais recentemente, algumas homenagens dos amigos. "O Cocada era como nós, tinha o mesmo amor pelo clube. Tirava dinheiro do próprio bolso para deixar o vestiário mais bonito, para os jogadores se sentirem melhor. Ele nunca teve o pensamento de ficar famoso, mas sim de mostrar como o trabalho dele fazia a diferença", diz.


No dia seguinte à tragédia, Matheus foi procurado por Dionatan Gomes, o Cavalo da Chape, seguidor de Cocada nas redes sociais e admirador do trabalho do roupeiro. Dionatan propôs que iniciassem uma campanha para bater a marca de 100 mil inscritos no canal e, com isso, homenagear o amigo com o reconhecimento público do canal e do conteúdo produzido por Cocada à Chapecoense.


A distância entre a ideia de Dionatan e a conquista dos 100 mil foi de 46 horas.


Em pouco tempo, os pedidos se espalharam pelo Facebook e o nível de engajamento com a causa, em meio à comoção, se tornou um fenômeno. Eu sei porque participei também, postando em grupos e pedindo uma mãozinha para amigos jornalistas e torcedores do mundo todo. Em meio a toda aquela tristeza, ninguém ficou de fora. Mais uma vez fomos capazes de dar as mãos por um objetivo. "A internet tem um poder gigantesco de mobilização. Foi um momento de muita alegria, fazer com que milhares de pessoas viessem a conhecer o trabalho dele e um pouco dos bastidores daquela grande família", lembra Dionatan. Ainda em dezembro, o canal passou dos 120 mil inscritos. 


Matheus e Dionatan pretendem seguir com o canal, criando conteúdos que se relacionem ao trabalho de divulgação ao qual o roupeiro se dedicava, como uma forma de manter viva a memória de Cocada e de ajudar a passar pelo momento que ainda é de luto. "O Cocada tinha 23 inscritos no canal dele, e fazia seus vídeos para os 23, com o mesmo amor que faria para 100 mil. Então, dar continuidade nisso é uma forma de agradecer a parceria dele com todos nós e se sentir mais proximos dele e de todos que se foram", finaliza Dionatan.


Afinal, éramos mesmo "do roupeiro ao presidente, todos uma grande família".



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