Chape: carta aberta para a Dona Rose

Oi, dona Rose.


Você pode estar achando estranho que esse meu primeiro texto de 2017 não seja sobre a pré-temporada da Chape, os compromissos do ano, as contratações e afins. A questão é que, com tantos veículos de imprensa cobrindo nossa Chape minuto a minuto, não sei se ainda há algo por dizer sobre isso. Então, resolvi que esse texto seria sobre o que vai acontecer conosco fora de campo. A nossa torcida precisa sentar e ter uma conversa séria entre si. Sei que você, como primeira-dama do alambrado que é, vai transmitir a mensagem para a Ala Norte inteira.


Um dia desses, eu estava organizando algumas pautas e lembrei do dia em que nos conhecemos pessoalmente, na Rádio Super Condá, na edição especial de Dia das Mães lá no Condá na Comunidade. Eu, auxiliando o Paulo Gomes na apresentação, precisava anotar o nome de todas as mulheres presentes na ocasião, que não eram poucas. Nome, profissão, nome dos filhos, relação com a Chape. Esposas de atletas, de diretores e afins, eram mais de dez. Já passaram meses desde o dia, mas lembro com detalhes da sua reação quando perguntei quem você era. Sentada no sofá da redação, com um meio sorriso e a maior calma do mundo, você se envolveu em uma discreta elegância e disse: “eu sou a Rose, da Manias”.


Eu não conhecia aquelas mulheres, muito menos a história de todas elas, mas é claro que eu conhecia a Rose, da Manias. Afinal, a dona Rose, da Manias, era tão apaixonada pela Chape quanto eu. E essa gente que conhece a sensação de misturar o frio da grade e o calor da arquibancada, bom, essa gente se reconhece de longe pelo coração que tem, que bate no ritmo da charanga toda semana. Você, como mulher corajosa que é, representa todas nós.


Mas enfim, dona Rose, não foi por isso que resolvi te escrever.


Eu resolvi te escrever porque fiquei com o coração miúdo quando te vi chorando, naquele 29 de dezembro, quando o pessoal se reuniu na praça para fazer uma oração. Um mês depois. Você chorava e cantava, ao mesmo tempo, o nome dos amigos que se foram. A cada lágrima, uma prece por alguém que não voltará. Eu só queria parar o que estava fazendo e ir até lá te dar um abraço. Não sei se eu diria alguma coisa, afinal, mas também não sei se seria necessário. A saudade de quem a gente ama faz essas coisas com a gente. Faz a gente expressar as coisas sem precisar falar de verdade, faz a gente verter sentimentos em gestos. Eu sei, comigo também tem sido assim.


Mas acima de tudo, dona Rose, resolvi te escrever porque amanhã será um dia e tanto. Amanhã tem jogo. Amanhã é dia de voltar para o Condá do jeito que sempre fizemos (ou do jeito que a gente fazia com tanta alegria até dois meses atrás). É dia de chegar cedo, colar na grade, torcer, cantar, rever amigos, revisitar o lugar que amamos. É dia de voltar a ver gols espetaculares, grandes defesas, contra-ataques fabulosos. É dia de aprender a cantar o nome de todos esses rostos novos que desembarcaram aqui em Chapecó para vestir nossa camisa. Amanhã, mais uma vez, a Chape precisa de nós. E eu sei que isso dói em você, porque dói em mim também.


Eu gostaria de te pedir para não chorar amanhã, quando o jogo começar, mas é um pedido injusto. Eu sei que você vai estar bem ali, atrás do gol. Ninguém sabe ao certo como será o primeiro jogo de verdade depois do que aconteceu. Então, dona Rose, só o que eu posso pedir é que você seja forte. A saudade ainda vai bater e vai doer por muito tempo em todos nós. Pode chorar, pode rezar, pode deixar a saudade vazar do jeito que vier. Eu é que não posso pedir para que você simplesmente não sofra. Mas é preciso entender que, enquanto essa maldita toma conta da nossa vida, a vida segue. Muita gente vem trabalhando duro para honrar tudo aquilo que ficou. Batalhando para que a Chape continue crescendo e construindo sua história. E a gente precisa ser muito forte para ser alicerce dessa construção, como sempre foi.


Espero que amanhã a saudade seja capaz de te fazer também sorrir. Mas se quiser, pode chorar. Eu também vou.


Um beijo,
Lekka