Chape: sobre as coisas que todos sentem ao mesmo tempo

No último texto que escrevi aqui no Vamo, Verdão, falei que a Chapecoense não me ensinou a escrever sobre tragédia. A cada dia que passa, desde aquela madrugada infindável, tenho mais certeza disso. As palavras simplesmente se escondem entre os dedos, tentam fugir do texto como nós tentamos, de qualquer maneira, fugir dessa realidade sufocante que se instalou desde o fim do mês passado. De mim, posso dizer que a dor brinca de esconde-esconde: na minha vez, quando conto o tempo, ela consegue se emaranhar na paisagem e aparece em vultos apenas. Mas quando é ela quem dita o tempo, não consigo encontrar esconderijo e ela vence sem esforço.


A questão é a seguinte: na mesma medida em que não aprendi a ser triste sendo Chapecoense, aprendi que tempo é o conceito mais complicado do mundo.


Completamos hoje o primeiro mês desde a tragédia que arrancou um pedaço de nós. Dimensionado pelo parâmetro da dor, o dia 29 de novembro de 2016 foi ontem. Esse mês só fez aumentar a saudade, o sentimento de impotência, a dificuldade em aceitar e a vontade de estar apenas vivendo um pesadelo. Se o critério for a montanha-russa que a Chapecoense viveu, o vai-e-vem de coisas e pessoas, esses trinta e um dias guardaram dentro de si o peso de vários anos. 


Será coisa de Condá, essa facilidade em perder o tempo de vista? Pelos olhos de quem vive a arquibancada, quantas vezes jogos inteiros passaram em poucos minutos? E quantos pênaltis levaram uma eternidade para serem cobrados? Por quantos dias celebramos a partida contra o San Lorenzo que nos deu a vaga na final? Quanto tempo levamos para ver esse mês inteiro passar?


De um jeito ou de outro, todos sentimos o peso do tempo sobre a dor da perda. É sobre esse sentimento coletivo que preciso falar.


Getty Images
Getty Images


Eu estava me sentindo mal no dia 28, achando que fosse simplesmente a tristeza do aniversário de falecimento da minha avó, mas soube de muita, muita gente que passou o dia todo sentindo uma angústia inexplicável. Eu estava acordada na madrugada da tragédia, mas recebi muitas mensagens de pessoas completamente diferentes dizendo que acordaram de repente naquela hora, sentindo um forte aperto no peito. Naquele dia, depois que a tragédia já havia tomado os noticiários, vi dezenas de comentários de gente que simplesmente sentia como se tivesse perdido um familiar ou um grande amigo - até mesmo de pessoas que tem pouquíssima relação com o futebol.


O que dizer do amor fraterno que recebemos de Medellín e de Curitiba? Com que palavras descrever a forma singela e sensível com que homenagearam a Chapecoense? Alguém se manteve imune às emoções? Cidades que não tinham obrigação alguma de qualquer coisa, mas que abriram suas portas e seu coração para que encontrássemos algum conforto. Povos que nos abraçaram, que encheram as arquibancadas de seus estádios para partilhar um espacinho do coração e mostrar que o luto era coletivo.


Hoje, com um pouco menos de escuridão diante de nós, podemos enxergar melhor: um mundo inteiro tem fé na nossa capacidade de escrever um novo capítulo na nossa própria história. É essa esperança que nós todos temos, mas que se esconde no meio da saudade.


Sentimos, e continuamos sentindo, isso tudo juntos.


Nelson Almeida/Getty Images
Nelson Almeida/Getty Images


Desde 2011, ano em que comecei na comunicação, tenho por hábito fazer uma retrospectiva da temporada vivida pela Chapecoense. Foi assim desde o antigo Gol da Chape até aqui. Não faltariam histórias sobre 2016, ano em que conquistamos nosso quinto título estadual, que nos mantivemos na elite do futebol brasileiro e que conquistamos... bem, queria poder dizer que Danilo perdeu uma bola no finalzinho da partida e perdemos a classificação para a final, mas estava tudo bem, pois avançamos em mais uma etapa e fizemos um espetáculo na Arena Condá. Seria perfeito.


Este é meu último texto de 2016 e quero utilizá-lo para agradecer, e só agradecer. Muito obrigado, do fundo do meu coração, a cada um de vocês que tem desejado força e coragem para nós, chapecoenses. Seja através de orações, de cantos, de faixas, de mensagens, de todas as boas energias. Seja de qualquer canto do mundo. Cada vibração positiva nos dá um pouco mais de luz para decodificar o que o futuro quer de nós. Um pouco mais de serenidade para levar em frente a linda herança que nos foi confiada pelos nossos anjos.


Que 2017 venha com muita paz. Vamos nos reeguer. Por eles. Por vocês. Por nós.