A última chuva de novembro

Getty Images
Getty Images


A Chapecoense não me ensinou a escrever sobre tragédia. Nesses alviverdes anos que vivi, até o infeliz final de novembro que ainda se encosta, aprendi todos os sinônimos existentes para alegria, satisfação, amor. Percorri todos os termos do dicionário que falassem em gratidão e docilidade, que exprimissem a simplicidade da qual somos feitos. Descobri com que palavras encontramos o anacronismo e os zigue-zagues do tempo Muitas vezes repeti adjetivos, mas não teria sentido usar palavras demais para descrever a confiança que faz de nós, chapecoenses, uma grande família.


Sei que muitos esperam de mim textos grandiosos e ricos em emoção. Não sei quando e quanto conseguirei suprir a toda essa expectativa. Só o que posso garantir é que parte de mim uma grande necessidade de honrar os amigos que perdi e o que eles representavam na minha vida. Escrever também ajuda a aliviar a dor. Seja em um texto ou quarenta. Hoje voltei para casa e pude ver a tragédia materializada no céu, que parecia mais baixo do que nunca. Nuvens pesadas, tempo feio e um horizonte que só transmitia pânico, enviesado por raios de sol insistentes. 


O que vou contar para vocês hoje, meus amigos, é o que ficou gravado em mim de uma madrugada que se tornou um dia, de um dia que se tornou uma semana e de uma semana que já parece se arrastar pela eternidade. 


Eu não planejava dormir tão logo naquela noite e resolvi que tiraria a insônia para me ajudar a limpar meu apartamento. No computador, baixinho, o YouTube fazia as vezes do rádio e o WhatsApp atraía meu olhar a cada poucos minutos. No grupo do Real Danone, algumas mensagens não lidas, mas silenciadas. Eram 3h07 quando Elias me chamou, perguntando se "a parada do avião da Chape era verdade ou se era zoeira de fdp". Achei que ele se referia ao desalinho da Agência Nacional de Aviação Civil sobre a autorização do voo que levaria a delegação a Medellín. Pulei para a outra conversa, todo mundo falando ao mesmo tempo, e meu mundo caiu na mesma hora.


Um printscreen do Twitter, tirado do celular, dizia: "#ATTENCIÓN| Avión RJ85, que transportaba jugadores de Chapecoense, se estrelló en Antioquia. Unidades de rescate llegan al lugar". Mateus disse que ia apurar.


Em seguida, outro print apareceu dizendo: "#Confirmado el vuelo accidentado en territorio Antioqueño con 82 personas es el que traía a Chapecoense desde Bolivia onde hizo parada". Palavrões. Perplexidade. Escrevendo, agora, sinto a mesma dor que senti quando li a notícia. A tremedeira, o suor frio. Não zoem. Não brinquem. Como assim, gente. Uma rádio confirma o acidente. Outra diz que não há feridos. Me mandam o link e só o que eu sinto é medo. 


Manoel fala que há óbitos. Mateus fala em falta de combustível. Will pede para que o Senhor proteja a Chapecoense. Filipe me pede para não acreditar, porque pode ser apenas alarmismo. Renan fala que não houve óbitos. O medo se materializa numa crise de pânico e meu nariz começa a sangrar. Manoel fala que foi a cinco minutos de distância do aeroporto. Já eram 3h28 quando Filipe informa: "estão repassando a mesma mensagem, que teve que fazer um pouso forçado por falta de combustível e que não há mortos". Tento acreditar, por um instante, mas começo a sentir que não estou sozinha no apartamento e não tenho mais coragem sequer de sair da janela do WhatsApp.


4h28. As rádios divergem, confirmam e desconfirmam mortes, como se brincassem com meu choro que insistia em cair, soluçante. Não consigo parar. Victor manda duas fotos. Numa delas, ferragens destruídas de um avião. Noutra, o que parece ser uma jaqueta com o escudo bordado, as quatro estrelas, tudo encoberto por terra e poeira. Senti a atmosfera pesar toneladas, senti que queria vomitar, senti que precisava de um abraço, senti o tamanho da peça que o destino nos pregava ali, naquele momento. 


Não sei dizer como foi que o tempo passou entre todas as lágrimas que chorei, todos os soluços, os gritos abafados. Abri a janela para o mundo, o Facebook e o Twitter jogavam na minha cara o tamanho da solidão e do medo que invadiam meu apartamento. Fazia silêncio? Não sei. Só sei que o barulho da chuva na sacada me enlouqueceu. Choveu como há muito tempo não chovia em Chapecó. Era o Universo que chorava comigo? Se fechar os olhos, ainda escuto aquela chuva encorpada que castigava a todos nós.


Um pandemônio de informações. Falam em resgatados. Falam em sobreviventes. Quis acreditar que eram eles a errarem as palavras - se ninguém confirmava mortos, por que falavam em poucos sobreviventes? A culpa era do vernáculo. 


Chamo o Vitão no Facebook. Precisava de alguém com a coragem que eu não tinha. Precisava de alguém que falasse espanhol. Precisava de alguém que não brincaria comigo. Precisava de alguém, apenas. "O que eles falam em sobreviventes é o mesmo que nós falamos em resgatados?".... "só três sobreviventes". A lista da programação da viagem, que circula nas redes sociais, me lembra de muitas pessoas que amo e admiro. Minha cabeça não sai delas. "Encerraram as buscas". A pouca coragem que ainda tinha se vai.


Mais de 70 mortos. 


Meus amigos não voltariam mais. Meu time. Meus ídolos. 


Arrancaram um pedaço de mim.


A notícia se confirma.


O dia amanhece e viro Clark Kent. De óculos e cabelo penteado, sou jornalista. O dever chama. Vejo uma imagem da Arena Condá, debaixo de chuva, onde três torcedores se abraçam. Fico em pedaços. É hora de sobreviver. Entro no carro e o rádio, esse caprichoso delineador do destino, toca November Rain. Because nothing lasts forever, and we both know hearts can change. Como foi que trabalhei tanto naquela manhã? Na Arena, encontro uma vigília. Uma multidão soturna que vai do silêncio ao grito de VAMO CHAPE! Dezenas de torcedores, lágrimas infinitas e apenas uma pergunta: por quê? A tristeza ocupa o lugar de qualquer resposta. Dor, e só dor. Quantos dias durou essa madrugada?


O que aconteceu dali em diante é o que vocês também sabem. É o que os veículos de todo o mundo mostraram. Eu vivi o desespero de uma madrugada sem informações, sem um ombro para chorar e sem tempo de secar as lágrimas. Vivi a falta de cada colega de imprensa durante as diversas transmissões. Senti o peso de ver o vestiário vazio. O oratório sem nenhuma vela acesa. A insuportável saudade que inunda os olhos e o rosto de cada um de nós. 


No fundo, vivemos todos a mesma solidão.


Não choveu mais até que novembro acabasse. And it's hard to hold a candle in the cold November rain.