O que a Chapecoense fez ontem não tem nome

ESPN.com.br | Heroico! Chapecoense segura San Lorenzo e está na final da Copa Sul-Americana


Eu nunca tinha visto concreto tremer. Mas tremer de verdade. Igual aos filmes de tragédia, de terremoto. Mas tremeu. A arquibancada da Arena Condá tremeu inteirinha. Toneladas de concreto, imensas vigas, placas, tijolos, toda a parafernália da engenharia civil. Tremeu de um jeito bem medonho, até. Será que mexemos alguns centímetros de lugar? Era gente demais, demais. Só na Ala Norte, ao redor da Barra, acho que eram umas oito mil pessoas. Menos, mais? Não sei. Se fosse só isso: eram milhares de pessoas pulando no ritmo da charanga. Pulando no tempo certinho. Gente, murga, faixa, boné, chapéu de palha, fone de ouvido. Pulou todo mundo. A arquibancada tremeu, e tremeu de um jeito tão lindo que ainda arrepia. Vamos, minha Chape, que esta noite teremos que ganhar.


Parecia que o coração só conseguia bater no mesmo tempo das murgas.


Nelson Almeida/Getty Images
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Se fechar os olhos e se concentrar, o torcer ainda pode ouvir o rugido das arquibancadas ao redor do Condá


Hoje acordei e passei um tempão olhando para o teto e pensando no dia de ontem. Na noite de ontem. Quantos anos se passaram entre um amanhecer e outro? Algo aconteceu com todos nós, um meteoro caiu, um vulcão entrou em erupção, alguém voltou no tempo, matou uma barata e mudou o curso das coisas. Talvez uma estrela cadente tenha irrompido nos céus e atendido a um pedido caprichoso das arquibancadas: "que esse brilho nunca mais deixe nossos olhos, que assim seja!". 


A torcida da Chapecoense tem qualidades únicas, mas há algo nela que eu sempre admirei: essa capacidade de sonhar alto e lutar por esse sonho sem tirar os pés do chão. É essa nossa mania de tirar o sucesso para bailar, de brincar com as coisas das quais somos feitos. É esse nosso jeito de celebrar cada pequena vitória e lidar com otimismo com cada pequena derrota. É por isso que a gente não tira o sorriso do rosto. Isso vem de muito tempo, e tem muito a ver com a simplicidade das pessoas que estão à frente do clube. “Gente como a gente”, que não espera nada cair do céu. Nossa torcida tem essa cara, esse velho hábito de valorizar a intensidade de cada batalha. Mas por um momento, hoje de manhã, me peguei pensando nas coisas que dizíamos há alguns anos.


Uma década atrás, quando a Chapecoense disputava apenas o Campeonato Catarinense e torneios como a Copinha, achávamos que não valia a pena nem sonhar com uma vaga no Campeonato Brasileiro. Em 2009, perdemos o título do Catarinão para o Avaí, que disputava a Série A, e conquistamos uma vaga na Série D. Aquilo foi demais. Nós, que raramente estávamos em mais de quatro mil pessoas no Regional Índio Condá, agora ganhávamos um pouquinho de respaldo no cenário nacional.


Loucos, loucos, loucos! Falávamos brincando: “já pensou se um dia disputamos a Série B?”. Essa estrela cadente deve ter passado no céu de Chapecó uma vez por ano. As coisas se alinharam. Veio a terceira divisão e a Chapecoense ficou, foi ganhando força, provando seu valor. Em 2013, na Série B, viramos a atração da região. Não havia roda de conversa em que o assunto não fosse a Chapecoense. A pequena Chape, que começou sem nenhuma estrutura, mandando jogos em Xaxim nos anos 1970. A Série B virou espetáculo. Cidades próximas organizavam até caravanas para ver jogos contra o Palmeiras, o Paysandu e até o Sport. Aí coisa ficou séria demais. 


Não se podia mais brincar. Todo ano alguém aposta no nosso rebaixamento, todo ano alguém quer cobrar algo que não nos diz respeito. E a gente foi se aconchegando, fazendo amizade com os donos da festa e a cada ano conquistando um espacinho a mais no coração do Brasil. Em 2014, achando que estar na Série A seria a maior coisa do mundo, brincávamos que um dia seria possível buscar uma vaga na Sul-Americana. Parece que nosso pedido foi uma ordem e o Universo respondeu alinhando todos os planetas e combinando perfeitamente as peças que hoje vestem a camisa da Chapecoense.


O que leva décadas para acontecer com muitos clubes, a Chapecoense conquistou em menos de uma. Respeito, consistência e autoconfiança em nossas mãos, só o chão sob nossos pés. Todo ano a cena se repete: damos um passo a mais e os olhos enchem de água.


Nelson Almeida/Getty Images
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O abraço de Danilo com Anderson Paixão, Neto com a boca sangrando, a expressão de Kempes: estamos na final!


O que a Chapecoense fez ontem não tem nome – “classificação” não dá conta de tudo que aconteceu. Foi uma revolução dentro de nós. Tomamos a Arena Condá de assalto. Foguetes, fumaça, sinalizadores. Recepção, ruas de fogo, corredor. Menos de quinze minutos que valeram como se cada um de nós tivesse abraçado cada um dos jogadores. Valeram como se cada um de nós estivesse dentro do vestiário, pedindo a todos: “LUTEM POR NÓS! ESTAMOS COM VOCÊS!”. Ali, no estacionamento do Centro de Eventos, não éramos uma torcida e um time. Éramos uma grande família.


Foi por isso que conseguimos fazer o concreto tremer.


Foi por isso que Danilo defendeu o gol com tamanha precisão. Foi por isso que equilibramos direitinho uma partida contra um dos maiores times da América. Foi nessa hora que o meteoro caiu, a estrela cadente passou, os planetas se alinharam e o Furacão se fez muito mais forte que o Ciclón. Quando o concreto começou a tremer, já estávamos na final. E agora ninguém mais tira.