Chape na Sula: o calor de uma noite gelada


Tem gente que chama de sorte, tem gente que chama de competência, tem até quem apele para os deuses do futebol. Alguns argumentam dizendo que é por causa da boa administração, da equipe técnica, alguns argumentam dizendo que é destino. Que é o momento. Que o nível da competição, que o lucro, que a vitrine, que isso, que aquilo. Todo mundo quer comentar, quer debater, ser o dono da razão e achar que existe alguma explicação para tudo. Dialogamos e concluímos que o futebol é um ciclo, e de repente alguém quer voltar ao começo da conversa sem se dar conta da ironia que isso é. E no fim, foi tudo isso mesmo. Foi sorte, foi competência, foram os deuses do futebol. Foi a boa administração, foi a boa equipe, foi o destino. 


Caiu um dilúvio sobre Chapecó nesta quarta-feira (26). Nós deveríamos ter previsto. Seria estranho se não houvesse uma intempérie. Um céu estrelado não nos diria tanto respeito quanto uma noite de chuva. Se fosse só isso! Não bastava a água que vinha de todas as direções possíveis, um vento ridiculamente gelado precisava dar as caras. Antes de entrar no estádio, teve gente que vestiu e desistiu das frágeis capas de chuva de plástico. Míopes, como eu, viram o jogo com um filtro permanente do Instagram. Era água demais, em todo lugar. Teve gente que foi embora tão cedo que ainda havia fila na entrada. O alambrado da arquibancada vibrava e não era só de emoção: teve gente pálida e tremendo sem respirar direito de tanto frio. 


E dentro das quatro linhas se fez calor.  


ESPN.com.br | Chapecoense atropela colombianos e vai à semifinal inédita na Sul-Americana


Lateral. Gil para Ananias. Bola na área. Nada. Bruno Rangel contra Balanta, para Dener. Muito alta. Escanteio, defesa, bola no alto. Gil com o peito do pé. Por cima. Cleber Santana lança Neto na ofensiva. Falta, cobrança, nada. Gil no apoio para Gimenez. NA TRAVE. Era tanta água na mesma hora que a bateria ganhou efeitos especiais na chuva que dançava no mesmo ritmo. Cleber Santana, Tiaginho, Bruno Rangel, zaga colombiana. De carrinho, Ananias. Gol. Pode respirar. Ou melhor, aprende a respirar debaixo d'água. Foi acontecendo. Não acabava nunca. A melhor aplicação tática possível. Constância, ritmo, atenção no adversário, entrosamento, concentração, coragem - por que é que no futebol existem tantos termos para dizer a mesma coisa?


Nelson Almeida/Getty Images
Nelson Almeida/Getty Images

Na dividida, Tiaguinho e Balanta versus o dilúvio


A Chapecoense conquistou nesta quarta-feira a classificação para as semifinais da Copa Sul-Americana 2016, um momento inédito para o clube e para o futebol catarinense. É engraçado que nos últimos anos tenhamos vivido a cena da superação dos limites tantas vezes. Quando achamos que já estamos bem demais, vem uma noite de chuva como essa e nos faz transbordar: alguém, naquela ocasião histórica do granizo, acreditava que em tão pouco tempo aquilo seria apenas história? 


Depois do jogo, encontrei diversos posts de torcedores ostentando orgulhosamente suas roupas encharcadas e seu encanto com "a história sendo escrita". É mais que isso. Nós, que beiramos a pneumonia com tantos jogos em dia de chuva (ou chuvas em dia de jogo?) nesse ano, não somos apenas espectadores dessa história. 


Quando recebemos o time com ruas de fogo, quando viajamos milhares de quilômetros por um jogo, quando olhamos ao nosso redor e nos sentimos em casa com aquele bando de desconhecidos, quando bate a emoção e, como ontem, o choro se desmonta com a chuva - não se trata de ver a história sendo escrita, mas sim de vivê-la. Somos também os atores. Da maneira mais intensa possível. 


No final do jogo, depois do gol de Thiego, o tempo passou de uma maneira paralela. As arquibancadas foram esvaziando e, como sempre, senti vontade de ficar um pouco mais ali. Caminhei um pouco e, no saguão da Ala Norte, já com o estádio quase vazio, a Barra Brava continuava tocando e muita gente passava por ali acompanhando a letra de cada canção. Eu não perguntei a ninguém, mas senti que eles também não queriam sair dali. Talvez esse sentimento não tenha nome, ou tenha muitos.


É essa a grande questão do momento que a Chapecoense vive. A tranquilidade de saber que a pessoa encharcada do seu lado sente a mesma alegria serena de viver tudo isso intensamente, sem se preocupar com o dia em que esse momento vai se tornar também história. Parafraseando Carl Sagan: "Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir essa chuva e essa arquibancada com você".


Marcio Cunha/Mafalda Press/Gazeta Press
Marcio Cunha/Mafalda Press/Gazeta Press

Feliz "Chapecoense na semifinal da Sula" para todos nós!