Carlos Alberto é o retrato do Botafogo de 2014

Já repeti algumas vezes - e realmente não me canso de falar - que o maior culpado pela crise atual do Botafogo é Maurício Assumpção, o presidente mais amador e omisso do Brasil. 


Mas, recentemente, ele falou uma asneira que fez muito sentido. Ele não percebeu, mas provavelmente foi a coisa mais sensata que ele falou nos seis anos de mandato em General Severiano. 


Ao dispensar metade de nossos titulares por motivos subjetivos e claramente pessoais, Maurício cravou: "eu aposto em Carlos Alberto para ser o principal líder do Botafogo nessa reta final de temporada". 


Fiquei revoltado quando me deparei com essa afirmação, mas, hoje, ela ganhou uma conotação diferente, abrangente e profunda. Se comparamos a trajetória de carreira do meia com os passos do Botafogo em 2014, bingo! São semelhanças que ilustram e explicam a situação caótica em que o Glorioso se encontra nessa temporada. 


Ambos começaram a trilhar seus caminhos de forma promissora. O Botafogo abriu o ano em alta com uma vaga na Libertadores, algo que não conquistava há 18 longas temporadas, com uma torcida presente e empolgada, festejando o craque Seedorf e seus bons companheiros. Já o meia, revelado no Fluminense, logo se transferiu ao Porto, de Portugal, onde apareceu muito bem e fez o gol do título da Liga dos Campeões de 2003/04. 


Em 2005, o jogador foi contratado pelo Corinthians com status de titular, mas teve atuações irregulares e logo perdeu a vaga para Roger. Fazendo o paralelo, o Botafogo entrou em 2014 prometendo montar um time competitivo, mas acabou perdendo o técnico Oswaldo de Oliveira e o craque Clarence, que pendurou as chuteiras, o que acabou causando uma fraca campanha no Cariocão. 


Num lampejo de qualidade, Carlos Alberto recuperou sua vaga no time e foi importante na campanha do título brasileiro corintiano - ao passo que o Botafogo fazia seus primeiros bons jogos na temporada, sempre com shows da torcida em um Maracanã lotado, em partidas válidas pela Libertadores. Foi assim contra Deportivo Quito e San Lorenzo. Ambos já enganavam e maquiavam suas graves deficiências.


Em 2006, a irregularidade de Carlos Alberto voltou e ele não conseguiu mais enganar. O Corinthians foi mal na Libertadores, no Paulistão e no Campeonato Brasileiro. Assim fez o Botafogo, amargando suas piores campanhas no Estadual e Libertadores, começando mal o campeonato nacional. 


Ao perder espaço, o meia voltou ao Fluminense em 2007 e fez parte do grupo que conquistou a Copa do Brasil daquele ano, sendo negociado com o Werder Bremen da Alemanha e prometendo retomar a boa fase na Europa. Já o Botafogo, na parada para a Copa do Mundo, fez parte do grupo dos vários times que prometiam melhorar depois daqueles 30 dias de treinos. Não melhoraria. E nem Carlos Alberto. 


Carlos Alberto passou um período apagado na Europa assim como o Botafogo passou um período apagado na Copa do Mundo, não realizando contratações para reforçar um elenco claramente fraco. Em 2008, o meia foi contratado pelo São Paulo. Era mais um recomeço, assim como o Botafogo 2014, que venceu o clássico contra o Fluminense e, logo depois, sua primeira sequência de duas vitórias consecutivas no campeonato, contra Santos e Chapecoense. Mas não duraria muito - como sempre - para os dois. 


O jogador foi afastado do clube paulista, e é aí que os dois se cruzam pela primeira vez. Carlos Alberto até que foi razoavelmente bem em sua primeira passagem no Botafogo. Mais uma vez, dessa vez juntos, os dois enganaram. Em General Severiano, Carlos Alberto se sentia em casa. Assim como o Botafogo 2014 no Maracanã, onde construía a segunda melhor campanha como mandante, perdendo apenas para o Cruzeiro. Mas não durou muito, assim como Carlos Alberto no clube. 


Em 2009, Carlos Alberto renasceu no Vasco. Na 24ª rodada, ao vencer o Goiás, o Botafogo 2014 renasceu no Brasileirão. "Agora vai", disseram. Carlos Alberto era cotado para a Seleção, tal qual o Botafogo era cotado para a metade de cima da tabela. E, é claro, nenhum dos dois aconteceu. 


Após alguns tropeços em Grêmio, Bahia e Goiás, Carlos Alberto acabou tendo seu nome envolvido em caso de doping. Assim como o Botafogo 2014 que, após alguns tropeços, desesperado, recorreu a Jóbson. 


Vitor Silva / SSPress
Vitor Silva / SSPress

Carlos Alberto tentando parecer esforçado. Essa legenda pode ser usada sempre


Pronto. Após muitas coincidências, chegamos ao clímax da história. Aquele momento onde não sabemos o que vai acontecer, mas temos todo um histórico que aponta tendências e probabilidades. Botafogo 2014 e Carlos Alberto enganam um ao outro e, dessa vez juntos, tentam enganar o torcedor. Mas esse não é bobo e sabe que ambos se merecem, mas que o Botafogo, o original, não tem nada a ver com isso. 


Portanto, Maurício Assumpção, eu concordo com você. Carlos Alberto não é só um líder desse grupo de 2014, como também é a cara dele: apático, acabado, desinteressado, displicente e abominável. Me sinto desconfortável - para ser sutil e educado - toda vez que o vejo vestindo nosso manto.


Sedento por raça, às vezes, fico à espera de que, a qualquer momento, Heleno de Freitas invada o campo e arraste Carlos Alberto pro vestiário, bradando que "meu Botafogo não é lugar de covarde". E não deveria ser, mesmo. Não é, Maurício Assumpção?


Portanto, através deste texto, venho ratificar que o "nosso presidente" não fala pela torcida. Em hipótese alguma. A não ser que ele realmente tenha pretendido dizer tudo isso com sua afirmação. 


Independentemente da divisão em que estaremos em 2015, faltam 22 dias para este senhor desocupar sua cadeira em General Severiano. Que seja feita a contagem regressiva. Quanto ao Carlos Alberto, que saia o quanto antes para enganar em outro lugar.