O despertar de um sonho

Eu acordei de um sonho. Um sonho que esperei 18 anos para sonhar. Um sonho que foi mostrando, aos poucos, que tinha prazo de validade. Esse sonho chama-se Copa Libertadores, e virou pesadelo para o Botafogo na última quarta-feira. Precisando vencer o San Lorenzo na Argentina para não depender de outros resultados, o Alvinegro assistiu passivamente seu adversário abrir 3 a 0 e dar fim à participação do clube de General Severiano na competição mais importante da América. 


A palavra final de elenco e comissão técnica foi unânime: o fator responsável pela eliminação do Glorioso foi a derrota, em casa, para o Unión Española, na penúltima rodada - onde foi concedido um pênalti inexistente ao time chileno. Jogar toda a responsabilidade em um lance isolado é típico de quem quer fugir de suas responsabilidades e falhas. Vários outros acontecimentos podem explicar melhor essa eliminação precoce, que marcou a pior campanha da história do Botafogo na Libertadores. Vamos a eles:


1. Escolha do técnico
Após 18 anos de espera, o Botafogo voltou à Libertadores. A primeira decisão de "planejamento", ainda em 2013, foi não fazer esforços para manter o técnico Oswaldo de Oliveira. O novo escolhido foi Eduardo Húngaro, treinador das divisões de base do clube, que não possuía qualquer experiência profissional. Em quase 5 meses de trabalho, Húngaro conseguiu obter a pior campanha do Botafogo no Campeonato Carioca e na Copa Libertadores, além de não dar o mínimo de padrão tático à equipe. Provas suficientes de que ele não estava à altura do cargo. 


Vitor Silva / SSPress - Flickr Oficial
Vitor Silva / SSPress - Flickr Oficial

Nem rezando Eduardo Húngaro conseguiu dar um padrão ao Botafogo


2. Aposentadoria de Seedorf
O holandês anunciou, ainda em janeiro, a sua aposentadoria como jogador de futebol. Atraído por um convite para ser treinador do Milan, ele aceitou o desafio e abandonou o barco que ajudou a construir em 2013. Sua participação, certamente, seria de grande valia ao clube, dentro e fora de campo. Fez falta e continuará fazendo. 


3. Enfraquecimento do elenco
Vitinho, Rafael Marques, Seedorf, Fellype Gabriel, Jádson, Andrezinho, Bruno Mendes. Esses são alguns dos nomes que deixaram o Botafogo ao fim da última temporada. No "planejamento" para 2014, o ano mais importante do clube nos últimos tempos, não houve espaço para reposição. Mesmo diminuindo consideravelmente sua folha salarial com as saídas, o clube não buscou reforços visando manter o nível do grupo, visivelmente enfraquecido em relação ao primeiro semestre de 2013. 


4. Complicações na Justiça e atrasos
Em um ambiente de trabalho, é preciso manter-se em dias com seus vencimentos e compromissos. Não foi o que aconteceu em General Severiano. Apesar da redução drástica na folha salarial, o Botafogo ainda assim atrasou salários - o que causou protestos justos do elenco. O clube complicou-se ao deixar o Ato Trabalhista - que possibilita o parcelamento das enormes dívidas - e teve 100% das receitas bloqueadas, segundo a diretoria. 


A sensação é de que a participação do Botafogo na Libertadores limitou-se à torcida, que deu show em todas as partidas no Maracanã, além de comparecer em excelente número ao Nuevo Gasometro na partida derradeira. Torcida essa que fez valer toda a espera de 18 longos anos e mostrou-se preparada, à altura da competição, com raça, vontade, brio, paixão, loucura. O oposto do clube, despreparado, inexplicavelmente desmotivado, sem alma, sem força. Ainda esperamos explicações - se é que elas realmente existem. 


Agora é juntar os cacos e preparar-se pro Campeonato Brasileiro. Mas não falo do clube, e sim da torcida, que continuará passando por maus lençóis nas mãos de quem não está preparado para devolver o clube ao seu devido lugar: as glórias. Vale ressaltar que 2014 é ano de eleição em General Severiano. Que Garrincha e Nilton Santos olhem por nós e nos dêem forças para chegar ao fim do ano sem sustos.