Camilo e Montillo: a dupla que ainda não engrenou

Desde que surgiram os primeiros rumores da contratação do argentino Walter Montillo, fui levemente contra. Em debates entre amigos, fui chamado de "chato" e "pessimista". Não por desgostar do meia, que é um jogador de renome, mas por um um fator que, no Brasil, quase sempre passa batido: o encaixe no time. 


Em 2016, a arrancada do Botafogo teve seu ponto de partida na efetivação de Jair Ventura; como todos sabem, o jogo coletivo e a disciplina tática foram os dois fatores principais para sairmos do Z4 e brigarmos até alcançar a vaga na Libertadores - algo, até então, inimaginável. 


Ventura organizou o time de acordo com as características que nossas peças possuíam: fechou a casinha, fortaleceu o meio-campo e optou pelo jogo sem bola, sendo mortal ao aproveitar as falhas adversárias. Em duas linhas de quatro, precisou improvisar extremos - seja com os atacantes Neílton e Pimpão ou o volante Bruno Silva. 


Na virada de ano, no entanto, Jair poderia indicar reforços a partir de um padrão de jogo - repetindo a tática de 2016 ou criando uma nova. Independente da escolha, a diretoria não se movimentou para buscar extremos. Para completar, fez seu maior investimento da temporada em um jogador que ocupa a mesma faixa de campo que nosso principal jogador - Camilo, o organizador de jogadas, que atuava flutuando à frente das duas linhas compactas.


E foi aí que o problema começou - junto com as minhas ressalvas em mesas de bar, citadas lá no início do texto. 


Não há esquemas razoáveis que encaixem Camilo e Montillo sem deslocar um dos dois e sacrificar suas principais características. No futebol moderno, é raríssimo ver times competitivos que atuem com dois armadores. Isso porque a velocidade e a dinâmica do jogo exigem movimentação e marcação constantes. 


Vitor Silva/SSPress/Botafogo
Vitor Silva/SSPress/Botafogo

Parceria entre Camilo e Montillo ainda não colheu os frutos esperados


Desta forma, Camilo vem jogando fora de sua posição de origem para dar mais liberdade a Montillo. Seja no 4-4-1-1 ou no 4-2-3-1, nosso cabeleira tem atuado aberto, como um extremo, e isso tem afetado diretamente o seu rendimento - o que, lamentavelmente, já gera uma cobrança excessiva de boa parte da torcida. 


Isso não quer dizer que, obrigatoriamente, nosso time não vá funcionar. Como vimos na Libertadores, o jogo coletivo ainda faz nossa equipe ser altamente competitiva - mesmo que não tenha as peças ideais para encaixar em seu esquema de jogo. Atuando no limite, superamos as deficiências através do jogo coletivo. A pergunta é: até quando nosso elenco aguentará jogar cada partida como se fosse uma final?


Negócio da China


Embora não tenhamos tanto tempo para esperar, é nítido que ainda é cedo para cobrar um futebol de alto nível a Walter Montillo. Vindo do pouquíssimo competitivo futebol chinês, ele claramente precisa de ritmo de jogo para aprimorar as partes física e técnica. O meia não atuava desde outubro e já não é mais nenhum garoto. O lado torcedor nos faz querer resultados imediatos - não pensem que comigo é diferente - mas o argentino ainda está em período de adaptação. Futebol, sabemos, ele tem. Diante do investimento feito, só nos resta torcer e apoiar.


Camito - ou nem tanto assim


Incrível perceber como uma má fase é capaz de destruir o carinho de boa parte da torcida em tão pouco tempo. A verdade é que Camilo não vive um bom momento desde a reta final do ano passado. A maioria de nós achava que a parte física estava pesando diante da maratona de "decisões" em 2016 - mas o camisa 10 ainda não deu as caras na atual temporada. Deslocado de sua melhor posição desde a chegada de Montillo, é nítido que ele não está confortável. É frustrante não vê-lo repetir as grandes atuações que emplacou logo ao desembarcar em General Severiano, mas tenho fé que ele irá recuperar sua melhor forma. 


Jair Ventura e a escolha de Sofia


Nosso técnico tem inúmeros méritos no comando do Glorioso desde que assumiu um desacreditado time em agosto de 2016. Uma delas foi conseguir transformar Pimpão em um excelente extremo, dando vitalidade e recomposição ao meio-campo. No entanto, ele pode precisar tomar uma decisão bastante complicada diante de tudo o que vivemos no futebol: barrar um dos dois principais nomes do elenco. Contra o Bangu, Jair experimentou um time sem Camilo em busca de um meio-campo mais dinâmico, veloz e marcador. É claro que nenhum time daria certo com Joel, mas a entrada de Fernandes mostrou que a saída de Camilo da equipe titular pode, sim, ser vista com bons olhos. Claro que é triste ver um protagonista perdendo espaço, mas que seja feito o melhor para o sucesso do Botafogo. 


Sempre do modo mais difícil


Como eu disse lá em cima, a montagem de elencos no Brasil ainda é precária. Pouquíssimos levam em consideração o encaixe das peças antes de sair contratando quase que aleatoriamente. Nosso planejamento foi falho em alguns aspectos - como não contratar extremos após improvisar na posição durante todo o ano passado - e gerou essa sinuca de bico para nosso treinador. Peças como Guilherme e Joel são desnecessárias, encarecem a folha salarial e tiram espaço de jovens promessas da nossa base. Vale lembrar que esse erro não é exclusividade do Botafogo - mas poderíamos corrigi-lo para os próximos anos, saindo na frente por um futebol mais organizado e profissional. 


E você, como organizaria o nosso time com as opções que tem o Jair?


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