Boca: há 10 anos, Riquelme fez do estádio Olímpico seu palco

Hoje Porto Alegre amanheceu fria. O despertador tocou pouco antes das sete e o termômetro mostrava seis graus. Nem sempre é fácil deixar as cobertas e lavar o rosto para mais um dia de trabalho. Mas não se pode fugir do inevitável e é preciso ser agradecido por isso. Por vezes, já somos vencedores e ainda nem nos demos conta disso.


Seria mais fácil descrever aquela noite de outono-inverno quando Riquelme fez do estádio Olímpico seu palco e apresentou um dos mais belos espetáculos que o continente já viu. Naquela noite, o Boca se tornava novamente campeão da Copa Libertadores e o último 10 se consolidava como o maior jogador da história dessa competição.


Gazeta Press
Gazeta Press

O baile do 10


Mas a história também tem outra narrativa. Eu tinha 20 anos, poucas perspectivas profissionais e pouco dinheiro no bolso. Estava trabalhando numa loja para juntar dinheiro e conseguir me matricular na faculdade, sonhando em dar o passo adiante que os adultos se sentem sempre obrigados a dar. E não foi fácil.


Assim que chegamos naquela final, eu desejei estar em Porto Alegre. Pedi, na época, liberação do trabalho por um dia, trocando com a minha folga. Gastaria o dinheiro que já havia guardado para poder fazer parte da celebração. O gerente disse não. Era uma tarde de domingo, entreguei meu crachá e pedi demissão. Não indico a ninguém fazer o mesmo. Mas pedi e sai sorridente numa tarde ensolarada. Me sentia livre para comprar a passagem e a entrada para ver Grêmio e Boca. E assim o fiz. O vento que batia no rosto era diferente. A sensação de ser dono da própria pauta e dos próprios sonhos.


Cheguei em Porto Alegre no dia do jogo, nunca havia estado na cidade. Com outros bosteros, fui para a porta do Olímpico. A atmosfera hostil que as noites de Libertadores oferecem é uma das mais lindas adrenalinas que se pode viver. Isso, sim, eu indico. Com ela, o mate quente, as charlas e chance de tocar o céu com as mãos mais uma vez.


Após os 3 a 0 em La Bombonera, não havia clima de apreensão, apenas de festa. Do começo ao fim do jogo sabíamos que seriamos vencedores. E Román fez de sua arte a assinatura daquela taça. A maior atuação em final de Libertadores já vista. E não falo só pelos dois gols.


Dez anos depois, consigo ter noção do que vivi naquela noite. Não foi apenas festa e título, foi um daqueles momentos sublimes que temos de contar aos nossos filhos. Isso porque a caminhada em pagar a faculdade, trabalhar e lutar para ser alguém na vida é uma luta constante, ela não acaba nunca. Podemos passar pela mais difícil fase de grupos, mas a vida é um mata-mata e todos os dias saímos de casa lutando para não sofrer o gol no último minuto. Neste meio tempo passei fome, dormi em transporte público, fui assaltado e morei em mais lugares que poderia imaginar. Foi muito mais difícil do que ganhar aquele jogo.


Neste 20 de junho de 2017, exatos dez anos depois, me encontro na mesma cidade onde estive. Porto Alegre é agora a cidade onde vivo, que me acolheu com a mesma alegria e bondade que o fez uma década antes. É o lugar onde trabalho e onde estou construindo minha família. Talvez agora eu possa olhar para trás e dizer que valeu a pena. E isso até seria fácil. Mas por muito tempo não foi. E por muito tempo todo o sacrifício só valeu a pena porque naquela noite nós fomos campeões.