Ponte para o time principal, Benfica B faz sua melhor campanha na segunda divisão

Isabel Cutileiro/SL Benfica
Isabel Cutileiro/SL Benfica

Benfica B ficou em quarto lugar na Segunda Liga de Portugal


A temporada 2016/2017 rendeu muitos frutos ao Sport Lisboa e Benfica no âmbito de futebol. O time principal conquistou o 36º título da Primeira Liga - que culminou no inédito Tetra - e a 26ª Taça de Portugal. Já o Sub-19 foi finalista da Uefa Youth League - parou no Red Bull Salzburg, da Áustria. Os "miúdos" do sub-15 se sagraram bicampeões do Campeonato Português de Juniores C - existem outras duas categorias: os Juniores A, para os sub-19, e os Juniores B, para os sub-17. Por sua vez, o Benfica B foi o quarto colocado da segunda divisão portuguesa, sendo esta a sua melhor campanha na competição.


Considerado a principal ponte entre as categorias de base e o "primeiro plantel", o Benfica B, paralelamente às outras categorias menores, tem como principal objetivo a revelação de jovens talentos. Um verdadeiro laboratório.


Seis jogadores os quais despontaram nos "bês" participaram da primeira equipe: o lateral-direito Nélson Semedo, o zagueiro Victor Lindelöf, os meias André Gomes e Renato Sanches, o meia-atacante Ivan Cavaleiro e o atacante Gonçalo Guedes. Destes, só Semedo ainda veste o manto encarnado.


Lindelöf, Sanches e Guedes rumaram, respectivamente, ao Manchester United, ao Bayern de Munique e ao Paris Saint-Germain depois de se sagrarem vitoriosos no time principal. Os Red Devils e os bávaros desembolsaram € 35 milhões cada; os parisienses, € 25 milhões.


O brasileiro Ederson, que recentemente se tornou o goleiro mais caro da História, levando em conta a atual conversão de euros para libras, também já atuou pelo escrete secundário do SLB.


Já existiram destaques do Benfica B os quais se mudaram para o exterior após poucos jogos - ou até mesmo sem ter feito alguma apresentação - pelo primeiro escalão. Foram os casos do lateral-direito João Cancelo (o Valencia gastou € 15 milhões para tê-lo), dos meias André Gomes (transferido pelo mesmo valor, também ao Valencia) e Bernardo Silva (vendido ao Monaco por € 15,75 milhões), do meia-atacante Ivan Cavaleiro (vendido por € 15 milhões, também ao Monaco) e do atacante Hélder Costa (o Wolverhampton, da segunda divisão inglesa, comprou seus direitos federativos por € 16,2 milhões).


Os "bês" na Segunda Liga


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Benfica B joga a segunda divisão portuguesa graças a uma iniciativa da Liga Portuguesa de Futebol Profissional


A Liga Portuguesa de Futebol Profissional permite que os times B tenham jogadores de 15 a 21 anos, além de três atletas acima de 23 anos.


As segundas equipes ganharam permissão para jogar a Segunda Liga na temporada 2012/2013. A inscrição custou nada mais nada menos que € 50 mil aos cofres dos clubes que desejavam - e tinham condições de - montar um elenco secundário. A Águia, que estava com o segundo time desativado desde 2006, reativou esse plantel, fundado em 1999. E o segundo escalão do futebol lusitano passou de 16 para 22 participantes: os "bês" de Porto, Sporting, Braga, Vitória de Guimarães e Marítimo se juntaram ao do Benfica entre os novatos.


Embora tomem o lugar de outros clubes profissionais - muitos deles tradicionais no cenário nacional -, essas equipes acabam facilitando o processo de promoção de jogadores das categorias de base ao elenco principal, bem como a profissionalização desses atletas.


Portugal hoje é referência no trabalho com jovens jogadores. Foi vice-campeão da Euro Sub-21 e campeão da Euro Sub-17 recentemente e frequentemente chega longe nos Mundiais Sub-20.


Além disso, os times B não jogam a Taça de Portugal e a Taça da Liga. E são proibidos de disputar as mesmas divisões dos principais. Ou seja, não podem subir à primeira divisão mesmo que frequentem as duas vagas do acesso. E caso o plantel da I Liga seja rebaixado, o elenco secundário acaba sendo relegado ao Campeonato de Portugal - a terceira divisão nacional.


Divulgação/SL Benfica
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Caixa Futebol Campus, a casa do Benfica B


Desde a inscrição na II Liga, o Benfica B ganhou fama de frequentador da parte de cima da tabela. Nas três primeiras participações, ficou na sétima, quinta e sexta posições.


Em 2015/2016, flertou com a zona de descenso e ficou em 19º, com 55 pontos, dois a mais que o último time a ser rebaixado, o Farense. Detalhe: um mês antes do fim da competição, o Farense perdeu dois pontos por ter escalado de maneira irregular, contra o próprio Benfica B, o atacante Harramiz.


Depois de um ano sufocante, a equipe B dos Encarnados somou 63 pontos na edição 2016/2017 e ficou na quarta colocação. Muito atrás dos promovidos Portimonense (83) e Desportivo das Aves (81), é verdade, mas o suficiente para chegar ao seu melhor desempenho na Segundona.


Os "miúdos" mandam seus jogos no Caixa Futebol Campus, no Centro de Treinamento do Sport Lisboa e Benfica, em Seixal, na Grande Lisboa, desde 2013/2014.


De maio de 2012 até fevereiro de 2013, recebiam os adversários no Estádio da Luz. Entretanto, como o gramado da casa do Maior de Portugal estava sendo castigado pela grande quantidade de partidas ali realizadas, a equipe B se mudou provisoriamente para o Estádio da Tapadinha, também em Lisboa, casa do Atlético de Portugal - que na próxima temporada vai disputar os Campeonatos Distritais, os quais correspondem à quarta divisão.


O comando


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Hélder Cristóvão treina o time B do Benfica desde 2013


O português Luís Norton de Matos, ex-jogador da Águia e hoje treinador da seleção sub-17 da Índia - que sediará o Mundial da categoria este ano -, guiou o Benfica B durante toda a temporada 2012/2013.


Depois veio o angolano naturalizado português Hélder Cristóvão, também ex-jogador do SLB, por quem conquistou uma Liga (1993/1994) e três Taças de Portugal (1992/1993, 1995/1996 e 2003/2004).


Hélder já vai para a sua quinta temporada no cargo. Longevidade importante para consolidar uma filosofia de jogo, de modo a tirar o melhor dos jogadores e dar-lhes noção tática, fatores importantes para formar talentos nesse imenso laboratório que é são as categorias de base da agremiação mais vitoriosa da Terrinha.


Jogadores do Benfica B que podem ser aproveitados na equipe principal


Conforme já foi relatado, seis jogadores dos "bês" das Águias conquistaram seu espaço no Benfica de 2012/2013 para cá. No que depender deste que vos escreve, essa lista aumentará.


Pode-se dizer que a vaga deixada por Lindelöf tem dois concorrentes: o croata Branimir Kalaica e o português Rúben Dias.


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Kalaica em ação pelo time principal do Benfica no 2 a 2 com o Boavista, em partida válida pela última rodada da I Liga 2016/2017


Kalaica, 19 anos, já estreou pelo time principal. Balançou as redes no empate em 2 a 2 frente ao Boavista, em pleno Estádio do Bessa, na última rodada da I Liga 2016/2017. Não é pelo gol que ele merece chances, mas sim por ter sido titular absoluto do time de Hélder Cristóvão e por já ter treinado diversas vezes com Rui Vitória. Está adquirindo cancha.


Rúben Dias (20) foi o companheiro de Kalaica na zaga do Benfica B. Tem ao seu favor o espírito de liderança que lhe rendeu a braçadeira de capitão. Somando-se à experiência e à qualidade técnica do ídolo Luisão, sua determinação poderia ser útil ao elenco primário.


Importante para o desenvolvimento de Lindelöf, a presença do brasileiro em campo serviria para Kalaica e/ou Rúben, que, mesmo com tamanho potencial, sofreram 58 gols na Segunda Liga.


Na volância, o grande destaque na competição nacional foi Pedro Rodrigues (20), o "Pepê". Dono de boa visão de jogo para articular jogadas de transição e para roubar bolas, ele esteve presente na última Copa do Mundo Sub-20, na Coreia do Sul, juntamente com Rúben - na ocasião, Portugal chegou às quartas de final, tendo perdido para o Uruguai nos pênaltis. Pode ser uma boa sombra para Fejsa e Samaris.


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Diogo Gonçalves já dá o que falar em Portugal


Mais à frente, os prodígios são Diogo Gonçalves (20) e José Gomes (18).


Diogo também jogou no Mundial Sub-20, onde balançou as redes três vezes. Na II Liga, foi apontado como um dos melhores jogadores do certame.


Nascido na Guiné-Bissau e naturalizado português, José Gomes é carinhosamente chamado de "Zé Golo". Foi campeão, por Portugal, da Euro Sub-17 2016, da qual também se sagrou artilheiro com incríveis sete tentos. Fez gol em quatro das seis partidas da Seleção das Quinas na competição sediada no Azerbaijão e foi eleito o melhor jogador do certame.


E não para por aí: ele também colecionou boas atuações na campanha do vice-campeonato do Sub-19 do SLB na última Uefa Youth League. Já tem quatro jogos pelo time principal: três na Primeira Liga (contra Arouca, Braga e Feirense) e um na Taça de Portugal (diante do 1º de Dezembro).


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José Gomes, o 'Zé Golo', em campo contra o 1º de Dezembro, pela Taça de Portugal


Diogo e Zé teriam concorrência pesada no ataque do Benfica. O setor conta com Jonas, Raúl Jiménez e Mitroglou. E recentemente foi reforçado com a chegada de Seferovic. Por outro lado, vale lembrar que Gonçalo Guedes também concorreu com esses nomes de peso e mostrou seu valor.


Outro jovem que mais cedo ou mais tarde pode ser utilizado por Rui Vitória é o meio-campista João Carvalho, 20 anos. Após passar três temporadas com o status de "cérebro" do Benfica B, foi emprestado ao Vitória de Setúbal em 2016/2017 para pegar experiência de Liga e chegar ao nível o qual o elenco principal exige. Seu contrato com o Vitória FC expira daqui a exatamente uma semana.


E já que estamos falando de médio ou longo prazo, por que também não ficar de olho em João Félix, de 17 anos? O meia foi apontado pela Uefa como uma das grandes revelações da última Youth League. Marcou seis gols em 10 jogos no certame.


Cinco brasileiros estão vinculados ao Benfica B: o zagueiro César Martins (24 anos, ex-Flamengo; emprestado ao Nacional da Ilha da Madeira), o ponta-direita Victor Andrade (21 anos, ex-Santos; emprestado ao Munique 1860) e os atacantes Igor Rocha (21 anos, ex-base da Ponte Preta), Luquinhas (20 anos, ex-Ceilandense/DF) e Alan Júnior (24 anos, ex-base do Coritiba).