Caso Garrincha: com Eusébio, Benfica e Portugal ensinam como se trata um ídolo

Fotos: Getty Images
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Garrincha e Eusébio: duas lendas da história do futebol


O mês de maio de 2017 termina com uma notícia que deixou o Brasil e o planeta de queixo caído. Nesta quarta-feira (31), o Cemitério Municipal de Raiz da Serra, em Magé, na Baixada Fluminense, anunciou que os restos mortais de um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, Mané Garrincha, sumiram. O Anjo das Pernas Tortas morreu em 1983, aos 49 anos, devido ao alcoolismo.


De acordo com os jornais cariocas O GloboExtra, a administração do cemitério admite a hipótese de que os restos mortais do craque tenham se perdido durante um processo de exumação.


"Houve uma informação de que o corpo foi exumado e levado para um nicho (gaveta do cemitério), mas não há documento de exumação", disse a atual administradora do cemitério, Priscila Libério.


Segundo a mídia local, existem no cemitério duas sepulturas com o nome de Garrincha. Uma coletiva, que fica na parte baixa do terreno, onde Mané e parentes do ex-jogador foram sepultados. A outra, construída em 1985, pela Prefeitura de Magé, fica na parte superior do cemitério e marca o ponto com um obelisco.


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'Agora, 34 anos após o funeral, o craque dribla, involuntariamente, quem procura por seus restos mortais' (Jornal Extra - Rio de Janeiro)


Atormentada por não saber onde os restos mortais do seu pai estão, Rosângela Santos, uma das filhas do jogador, desabafou: "Meu pai não merecia isso".


João Rogoginsky, primo de Mané, disse à imprensa carioca que outra pessoa da família teve de ser enterrada no jazigo onde o Craque das Pernas Tortas estava. Segundo João, ele foi informado na época, há 10 anos (!), que a ossada do jogador foi retirada para ser colocada num nicho. Porém, não assistiu à exumação e reclamou da ausência de uma documentação sobre o fato.


E agora? Onde está Garrincha?


Esquecido na miséria durante seus últimos dias de vida, o eterno craque do Botafogo de Futebol e Regatas e da Seleção Brasileira não tem paz nem depois de já ter deixado nosso mundo. "Se a família concordar, faço exumação nas sepulturas. E um DNA para saber se algum corpo é do Garrincha", afirmou o prefeito de Magé, Rafael Tubarão.


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Mané Garrincha foi campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958 e 1962


Sabemos que o Brasil é um lugar complicado quando se trata de valorizar quem colocou o país em evidência e deu muitas alegrias aos brasileiros. O caso Garrincha não nos desmente.


A aula vinda de Portugal


Reprodução/Facebook
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Após a morte de Eusébio, Benfica jogou com braçadeira preta no uniforme durante um ano


Do outro lado do Oceano Atlântico, há um exemplo claro e evidente do contrário. Desde que despontou no Benfica e colocou o clube lisboeta e a seleção de Portugal em evidência no cenário futebolístico mundial, Eusébio sempre foi reverenciado na Terrinha. Embora toda gratidão pareça ser pequena diante de tudo o que o Pantera Negra fez pelos Encarnados e pela Seleção das Quinas - e corram o risco de serem piegas -, homenagens eram - e continuam - frequentes. E dão noção da grande dimensão do King para o país ibérico.


Anualmente, desde 2008, é realizada no Estádio da Luz a Eusébio Cup, competição, como sugere o nome, criada para homenagear o Rei de Portugal. Até 2014, o troféu do torneio amistoso era entregue ao vencedor pelo próprio Eusébio - inclusive, jornais do país dão conta de que a próxima Eusébio Cup será entre Benfica e Chapecoense.


Reprodução/BTV - Benfica TV
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Caixão de Eusébio fez volta olímpica no Estádio da Luz diante de milhares de benfiquistas: desejo do Pantera Negra foi realizado


O vencedor da Bola de Ouro de 1965 e das Chuteiras de Ouro de 1967/1968 e 1972/1973 faleceu em 5 de janeiro de 2014, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória, aos 71 anos - completaria 72 no dia 25 do mesmo mês. No dia 6, seu caixão fez uma volta olímpica no Estádio da Luz, diante de milhares de benfiquistas. Um desejo que Eusébio já havia deixado claro em vida foi realizado.


Depois de um desfile pelas ruas de Lisboa, o corpo do King foi sepultado no Cemitério do Lumiar, na capital portuguesa.


A equipe do Benfica jogou com uma tarja preta em seu uniforme até o dia do primeiro aniversário da morte de Eusébio, para simbolizar os 365 dias de luto.


Também no dia em que se completou um ano da morte de Eusébio, uma das ruas de acesso à casa do Sport Lisboa e Benfica teve o nome alterado de Avenida General Norton de Matos para Avenida Eusébio da Silva Ferreira. A homenagem contou com a presença da viúva do Pantera Negra, Flora Claudina Bruheim. A mudança, reivindicada pelo clube junto ao governo municipal de Lisboa, foi uma conquista de toda a nação benfiquista.


Isabel Cutileiro/SL Benfica
Isabel Cutileiro/SL Benfica

A viúva de Eusébio, Flora, na inauguração da Avenida Eusébio da Silva Ferreira


Quase seis meses depois, no dia 3 de julho de 2015, os restos mortais de Eusébio foram transferidos ao Panteão Nacional, o qual fica na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, onde jazem as maiores referências da história de Portugal. O traslado foi aprovado por unanimidade na Assembleia da República, no parlamento lusitano, em 20 de fevereiro do mesmo ano.


Maior artilheiro da história do SLB com 638 gols em 614 partidas e terceiro maior goleador da seleção de Portugal com 41 tentos em 64 jogos, Eusébio da Silva Ferreira foi o primeiro desportista e o primeiro negro a fazer parte do Panteão lusitano. E carregará eternamente o status de símbolo nacional. Por sua vez, Portugal mostra que ser uma grande nação é respeitar sua história e preservar sua memória.


Na época do luto pela morte do craque, a estátua de Eusébio, que fica em frente ao Estádio da Luz, foi tomada por cerca de 3 mil objetos, como cachecóis e bandeiras do Benfica e de outras clubes. Uma singela e, ao mesmo tempo, significativa homenagem dos apaixonados por futebol ao Rei de Portugal.


Divulgação/SL Benfica
Divulgação/SL Benfica

Estátua de Eusébio, no Estádio da Luz


Um ano depois, os objetos dessa "peregrinação" foram retirados e guardados em uma sala especial do Museu do Benfica - Cosme Damião. E a estátua, antes envolta por uma estrutura metálica, fechada em vidro, agora está livre, para dar maior sensação de pertencimento aos torcedores. Até página no Facebook ela tem.


O maior ídolo da história do Sport Lisboa e Benfica nasceu em 25 de janeiro de 1942, em Lourenço Marques, África Oriental Portuguesa, atualmente Maputo, capital de Moçambique. Sua história nas quatro linhas, que levou o Benfica e Portugal aos quatro cantos do mundo, manterá seu nome vivo. Para sempre. Com constantes e merecidas homenagens.


Getty Images
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'Eusébio, tu és o nosso rei...'


Se tem uma pessoa a qual podemos dizer que descansa em paz, essa pessoa é Eusébio, campeão da Copa dos Campeões Europeus de 1961/1962, de 11 Campeonatos Portugueses e de cinco Taças de Portugal e artilheiro da Copa do Mundo de 1966. O brasileiro Garrincha, campeão do mundo em 1958 e 1962, merece honrarias iguais.