Nem todos tiraram lições a partir da tragédia da Chapecoense

Reprodução/YouTube
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'Quem me dera que o avião da Chapecoense fosse do Benfica', cantaram integrantes da claque Super Dragões no clássico entre Porto e Benfica


Desde a tragédia aérea do dia 29 de novembro de 2016, a Chapecoense ganhou um lugar especial no coração das pessoas. Naquela época, o planeta deu lindas demonstrações de solidariedade, empatia, fraternidade, amor e demais sentimentos nobres. Ainda é muito difícil assimilar tudo o que aconteceu. A cicatriz é das mais profundas.


Mas, infelizmente, exemplos de falta de sensibilidade foram acontecendo pouco a pouco. Teve dirigente brasileiro falando em "tragédia particular" para beneficiar seu próprio clube. Na França, árbitro dando cartão amarelo a jogador que homenageou a Chape ao comemorar um gol. 


Nesta quarta-feira (12), Porto e Benfica se enfrentaram pelo Campeonato Português de Handebol. Durante a partida, vencida pelo time azul e branco por 30 a 27, integrantes da claque (termo do português de Portugal usado para se referir às torcidas uniformizadas) Super Dragões entoaram um cântico com os seguintes dizeres: "Quem me dera que o avião da Chapecoense fosse do Benfica". A atitude desumana foi gravada, postada no YouTube e rodou o mundo. A vitória portista foi jogada para o segundo plano.


E ficou a triste constatação de que nem todas as pessoas tiraram lições a partir da tragédia envolvendo o clube do oeste do Estado brasileiro de Santa Catarina.


Sirli Frestas/Chapecoense
Sirli Frestas/Chapecoense

Chapecoense vive momento de reconstrução após a tragédia aérea de Medellín


O esporte, sendo um importante instrumento de união dos povos e um fenômeno social, jamais pode ser palco de provocações de nível tão baixo. E por mais que existam rivalidades, elas devem ficar somente nas quatro linhas. Fora delas, as diferentes preferências por times não podem ser empecilhos para confraternizações.


Sabemos que a rivalidade entre Benfica e Porto é explosiva. Não envolve apenas futebol, pois a tradição poliesportiva em Portugal é muito forte. Também tem bairrismo no meio, pois confronta as regiões norte e sul do país. Motivos suficientes para que esse duelo seja colocado entre os maiores do mundo.


João Paulo Trindade/SL Benfica
João Paulo Trindade/SL Benfica

Equipe de handebol do Benfica foi alvo de insultos do grupo uniformizado Super Dragões


As letras proferidas representam uma profunda falta de respeito com a Chapecoense (torcedores, dirigentes, atletas e demais funcionários), as vítimas da tragédia e seus familiares e amigos e todos os que fazem o Sport Lisboa e Benfica (torcedores, dirigentes, atletas e demais funcionários).


O FC Porto prontamente se desvinculou dos cânticos ofensivos. Embora esta atitude tenha sido apoiada pelo SLB, faltou por parte do FCP um sincero pedido de desculpas ao Verdão do Oeste e aos Encarnados, o que representaria um gesto de extrema nobreza. Tenho certeza de que muitos portistas também esperam por isso.


Reprodução/Twitter
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Porto pediu que os cânticos de seus torcedores se concentrem no apoio ao clube


O ex-presidente da Chapecoense, Nilo Traesel, que atualmente mora em Portugal, mostrou profunda indignação com o ocorrido e criticou a diretoria portista. Ele vê a postagem do clube da Cidade do Porto nas redes sociais como uma mera transferência de responsabilidade. "A direção do FC Porto deveria ter uma manifestação de repúdio, tomar uma posição e não se resguardar por trás da claque. Deveria ser ela a assumir a responsabilidade, apurar quem foram os responsáveis e exigir deles um pedido de desculpa, em primeiro lugar, à Chapecoense", disse em entrevista ao jornal português Record.


"A diretoria do FC Porto deveria ter uma posição forte. No mínimo, enviar uma carta à direção da Chapecoense com um pedido de desculpas", completou Nilo, reiterando que defende o fim das torcidas organizadas dos estádios. O ex-dirigente acredita que a diretoria da Chape não irá se manifestar sobre o assunto. De fato, até agora não se pronunciou. 


Reaja, Porto, e nos faça ter orgulho do grande duelo que nossos clubes constroem.