Müller e a insatisfação com a reserva do Bayern

Thomas Müller é peça rara no futebol mundial. É um dos pouquíssimos jogadores - e talvez o único nesta geração - que não é dotado de qualquer característica técnica especial e, mesmo assim, consegue estar no seleto grupo dos grandes. Sua apurada leitura de jogo e eficiência fizeram com que dribles, jogadas bonitas e até mídia ficassem em segundo plano na caminhada que consolidou seu nome como um dos melhores do Bayern e do mundo da bola.


Se sustentar nessa qualidade alternativa e incomum sempre foi missão das mais complicadas, mas por anos ele conseguiu fazer seu nome com base nela. Não à toa, possui 10 gols em duas Copas do Mundo e já ganhou tudo na carreira, sendo importante em boa parte dessas conquistas. Por muitos anos Thomas foi titular inquestionável do Bayern por conta desse faro, mas o futebol constantemente vive mudanças - e no clube não foi diferente.


Desde que Thiago Alcântara chegou no clube, em 2013, a busca por um perfil que tivesse como principal arma o toque de bola e a articulação de jogadas parecia estar entre as pretensões do Bayern. Nada que tirasse o sono de Müller: as várias lesões de Thiago ao longo dos dois anos e meio subsequentes pouco ou nada ofuscaram seu status de intocável. Guardiola contou com ele não apenas centralizado pelo meio, que é onde gosta de jogar, como também muitas vezes como falso nove e ponta, onde jamais vingou.


No começo de 2016, no entanto, Müller parecia já não encabeçar os planos do já de partida Guardiola. Não foram poucos os jogos em que foi preterido, abrindo espaço justamente para Thiago. Seu nível, em paralelo, vinha caindo, é verdade. Mas o torcedor ainda acreditava que ele era essencial no onze principal, tanto que questionou veementemente Pep quando o preteriu na primeira partida contra o Atlético de Madrid, pelas semifinais da Champions daquela temporada. No segundo jogo ele atuou, foi apenas ok e acabamos eliminados.


Veio a Eurocopa daquele ano e sua atuação foi um fiasco completo. Suas atuações não foram apenas muito ruins, como também omissas em grande parte do tempo. Até hoje não sabemos Thomas estava com algum problema pessoal ou algo do tipo, mas algo é fato: ali era o começo dos tempos ruins que vive até o momento. No dia da eliminação da Alemanha eu cravei, aqui neste espaço, que o banco era uma realidade para ele. Embora alguns tenham rido, é exatamente disso que hoje, um ano depois, ele, de forma frustrada, reclama.


Getty Images
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Ancelotti parece ter assistido atentamente à última temporada de Thomas antes da Eurocopa e a competição continental em si, e chegou ao Bayern determinado a lhe dar poucas chances. Os números de Müller despencaram em sua primeira temporada com o treinador italiano, muito em função de estar no banco em diversos jogos e pouco aproveitar suas raras chances. 


A nova temporada começou e ele novamente parece estar fora dos planos do treinador - a vinda de James Rodriguez e os poucos minutos até então deixam isso bastante evidente. Foi o suficiente para expor, em entrevista, sua indignação quanto às pretensões de Ancelotti. Sem qualquer polêmica ou questionamentos quanto ao modus operandi do treinador, apenas afirmou, em outras palavras, estar magoado com o banco.


É triste ver Thomas, um dos pilares do patamar atingido pelo clube atualmente, nessa situação. Mas ao mesmo tempo é animador vê-lo inconformado com este panorama. Mostra que ainda tem ambição para enfrentar o problema. Não precisa ter pressa para voltar: todos no Bayern confiam nele, e o clube não tem a menor pretensão de negociá-lo - Rummenigge já garantiu isso mais de uma vez.


É hora, portanto, de colocar a cabeça em ordem para, depois, retornar ao que sabe fazer tão bem, que ajudar o Bayern a ter sucesso. Sua indignação com o banco já é um ótimo passo para superar os problemas e se dedicar triplamente aos treinos e finalmente convencer o treinador de que é capaz de ser titular deste time. Se precisar de uma grande motivação, que seja a Copa do Mundo do ano que vem e a oportunidade de sagrar-se ainda mais na história da competição e da Seleção Alemã.


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