O Barcelona perdeu porque é um time em construção

Perder um clássico fora de casa não é o fim do mundo, não é motivo pra crise, e não deve influenciar a continuidade da linha de pensamento, da filosofia que Luis Enrique está colocando nesse time.


Dito isso, vamos ao fato: ganhou o time mais pronto. Eram dois times que tiveram muitas mudanças em relação à temporada passada, mas um deles está mais avançado no processo de reconstrução.


No título do texto sobre o jogo contra o Ajax, eu escrevi "dupla afiada, time pronto", e não volto atrás nessas palavras. A base da era Luis Enrique está pronta, está formada. Messi e Neymar estão afiados. Mas hoje enfrentaram um adversário forte e que soube como combater a dupla e o time.


E ficou clara a existência da NeyMessidependência. Em um time que está se formando, quando o coletivo não funciona, os craques precisam decidir. Neymar fez um belo gol, mas depois disso só errou. Próximo ao final do jogo, desapareceu.


Messi sumiu no começo do primeiro tempo, reapareceu, e no segundo tempo desapareceu de novo. Muito disso se deve ao posicionamento que mudou com a entrada de Suárez. Messi jogou ainda mais longe da área do que nos outros jogos da temporada, e não conseguiu render nessa posição.


Suárez foi bem, se movimentou e deu o passe para o gol de Neymar, além de deixar Messi cara a cara com o goleiro em outro lance. Foi o melhor atacante do Barça no jogo. Luis Enrique acertou em colocá-lo, mas o Barcelona ainda não havia jogado com o uruguaio, e pagou o preço por jogar com uma formação nova.


Jogar toda a culpa na defesa também é fácil, ainda mais depois do show de horrores que foi o terceiro gol adversário, uma falha defensiva enorme.


Mas Mascherano fez várias intervenções em contra-ataques adversários, impedindo que o placar fosse mais elástico. Piqué vacilou no lance do pênalti, um zagueiro de alto nível não pode cometer um erro desses num clássico. Mas durante todo o jogo fez desarmes pontuais e interceptações que impediram que o adversário criasse mais chances perigosas.


Mathieu jogou pela lateral esquerda, e em alguns lances, em contra-ataques rápidos, não conseguiu acompanhar o lance. Mas no começo do jogo, quando o Barça estava sofrendo uma pressão muito grande, as chances mais perigosas eram pelo lado direito, e não pelo lado esquerdo, defendido por Mathieu.


É fácil depositar a maior parte da culpa no setor mais fraco do time depois de uma derrota onde o adversário se impôs durante quase todo o jogo. É fácil culpar os dois craques do time, que não apareceram e não conseguiram oferecer perigo ao gol adversário.


Mas não foi uma derrota de um setor ou de uma dupla. Foi a derrota de um time em construção. De quatro defensores que nunca haviam jogado juntos na temporada. De um meio de campo com um volante que estava voltando de lesão e não tinha participado dos últimos dois jogos. De um ataque também inédito, com um potencial enorme, mas sem entrosamento.


Foi uma derrota importante, que precisa ser levada muito a sério por Luis Enrique. Apontou problemas no time, nas táticas, na postura. Problemas que não são vistos contra adversários como Elche ou Ajax.


O Barcelona está trilhando o caminho de um time em renovação. Não é um caminho fácil, muito menos tranquilo. É um caminho cheio de barreiras, e hoje o time encontrou uma das maiores barreiras que poderia encontrar e não conseguiu superá-la.


O Barça foi derrotado, mas se souber aprender com os erros que cometeu, essa derrota pode se tornar uma vitória, uma lição para que na próxima vez que uma barreira for encontrada, o Barcelona saiba contorná-la.