Brilho individual e coletivo: Barça de Valverde enfim encantou a torcida

Era difícil não estar com um sorriso no rosto ao final do jogo. Do hat-trick de Messi à estreia de Dembélé, tudo deu certo para o Barcelona em uma partida com muito brilho individual e sem deixar de lado uma ótima atuação coletiva. O primeiro gol da vitória contra o Espanyol foi irregular, um problema que infelizmente continuará sendo rotina enquanto a tecnologia for desprezada pelo futebol espanhol. Contudo, o erro do árbitro não apaga o domínio completo do Barça.



O desenho tático da equipe por horas parecia um 4-2-3-1, enquanto em outros momentos era mais um 4-3-3. Mais importante do que os números que definem esse esquema é a forma como o time se comportou. Deulofeu jogou pela direita, lado onde rende mais. Messi teve total liberdade, mas ficou mais centralizado.


Sem um ponta pela esquerda, Suárez por vezes apareceu naquele lado, mas no segundo tempo voltou a ser centroavante, sempre se movimentando muito. Alba teve total liberdade para descer e explorar esse lado do campo, e retribuiu com duas assistências para Messi.


A melhor parte foi ver uma equipe que soube ocupar os espaços no campo, sem deixar algum jogador isolado e sempre dando opções para quem estava com a bola. Mais de 76% de posse e 648 passes certos (89% de acerto), números que mostram o domínio como tem que ser, com a forma de jogar que o Barça está acostumado.


Reprodução/WhoScored
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Mapa de calor do Barça no jogo


Ainda que Alba tenha feito uma grande partida, é preciso equilibrar melhor a equipe nessa formação. Vemos pelo mapa de calor que o lado direito foi usado com muito mais profundidade, com as ações de Deulofeu e Semedo dominando o setor. As jogadas pelo lado esquerdo aconteciam, mas com menos frequência. Esse é um ajuste necessário para evitar que a equipe fique previsível com o passar do tempo.


Ao mesmo tempo, esse mapa de calor mostra uma grande presença do Barcelona dentro da área. Isso é um ótimo sinal, indica que a estratégia de Valverde foi bem sucedida em fazer o time infiltrar na defesa adversária e não ficar preso no ciclo repetitivo de rodar e rodar a bola sem encontrar espaços.


Individualmente, são vários os destaques. Se o lado direito funcionou bem é porque Deulofeu e Semedo fizeram um ótimo trabalho. A torcida, como era de se esperar, torceu o nariz ao ver o camisa 16 como titular, enquanto Dembélé ficou no banco.


Em campo, o atacante foi bastante participativo e fez exatamente o que se espera dele, sendo um ponta clássico que chega muito à linha de fundo. Volto a dizer: não é um jogador para ser titular, mas para o elenco e mantendo essa evolução no jogo coletivo, Deulofeu pode ser muito útil.


Semedo foi titular na lateral e era um dos assuntos mais comentados pela torcida ao fim do jogo. Boa atuação, seguro na defesa e apoiando bem no ataque. Pela maneira como Valverde armou o time, o lateral direito acabou sendo pouco usado para chegar à linha de fundo, função que ficou para Deulofeu, e foi responsável por ajudar a dar superioridade numérica ao meio de campo. Jogo a jogo o português será avaliado na forma como se encaixa em cada uma dessas funções, mas, até aqui, ele parece estar bastante confortável com as instruções táticas do treinador.


Ainda pelo lado direito, Rakitic fez uma boa partida, especialmente no primeiro tempo. O esquema tático deu mais liberdade para chegar próximo da área, mas o mais importante foi a participação organizando o jogo - Ivan deu 84 passes e acertou 77 deles, número menor apenas do que os dos zagueiros titulares.


O lado esquerdo, apesar de ser utilizado menos do que o ideal, funcionou muito bem graças à ótima atuação de Alba, decisivo com duas assistências para Messi. Um bom começo de temporada é fundamental para o lateral recuperar a confiança perdida no final da passagem de Luis Enrique.


No ataque, além da boa partida de Deulofeu, vimos Messi ser Messi. Três gols, quatro chances criadas (junto com Jordi Alba, o melhor da partida nesse índice) e a movimentação que se espera dele. O argentino foi camisa 6, 9 e 10 em uma só partida, algo que parece loucura mas é normal para ele. Organizou o jogo no meio de campo, criou chances para outros jogadores e saiu de campo com um hat-trick. Mais um dia comum na vida de Messi.


Getty Images
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Messi foi o destaque individual num ótimo jogo coletivo do Barcelona


Suárez foi um jogador interessante de ser observado, já que durante o tempo que ficou fora por lesão o Barça acabou voltando a usar um falso 9 e havia a dúvida de como seria o comportamento com o retorno do uruguaio.


O camisa 9 se movimentou muito, mas a parte central da área foi a parte do campo mais frequentada por ele, mostrando que Valverde não deve pensar em usá-lo fixo pela ponta esquerda. Foram 7 chutes a gol, mas só na última tentativa Suárez conseguiu colocar a bola nas redes.


E conseguiu em uma grande jogada. Lançamento perfeito de Stegen para André Gomes, o meia dominou e enfiou uma bola na medida para Dembélé. O estreante da noite precisou de um toque para colocar Luisito na cara do gol. Finalização de primeira, no contrapé do goleiro. Goleada sacramentada.


Essa jogada ficará o final de semana inteiro na cabeça de Dembélé, sem dúvida alguma. “Ele é um chicote,” disse o treinador do Espanyol após o jogo, exaltando a velocidade do novo camisa 11 do Barcelona. As assistências que deixavam Aubameyang na cara do gol foram o destaque de Ousmane na temporada passada. Nada melhor do que iniciar sua carreira no Barça fazendo o mesmo com Suárez.


Talvez Valverde ainda ache cedo para que ele comece contra a Juventus, na terça-feira, e prefira repetir a escalação que funcionou muito bem hoje. Depois da boa atuação de Deulofeu, a torcida provavelmente iria reclamar menos, mas o principal é dar tempo para que Dembélé se adapte ao time e tenha tranquilidade para fazer o que sabe. É um excelente jogador, mas como disse Rakitic após a partida, chegar ao Barça nunca é fácil.


Tudo ficará mais fácil para ele se o time funcionar coletivamente como foi hoje. A jogada do terceiro gol de Messi é simbólica: tranquilidade para fazer a bola sair de Stegen, passar por quase todo o time até chegar nos pés do camisa 10. Sem pressa, procurando espaços e esperando o momento certo para definir o lance. Esse é o Barcelona que queremos ver, e a goleada no dérbi pode ser o primeiro passo para recuperar a identidade da equipe.


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O momento que Dembélé vai demorar a esquecer