Neymar poderia suceder Messi no Barça, mas sai jogando sua idolatria no lixo

Não existe uma fórmula para se tornar ídolo de um clube no futebol. Alguns se tornam pelos títulos conquistados, outros pela liderança dentro de campo ou por representarem os valores da instituição, e ainda há aqueles que simplesmente ganham a torcida com algum gesto, alguma atitude, mesmo sem ser um jogador brilhante.


Em quatro anos de Barcelona, Neymar se tornou um ídolo do clube. Fez parte do trio MSN, que marcou os três anos vitoriosos com Luis Enrique, teve participação decisiva em todos os títulos e, talvez o que mais será lembrado, a heroica virada sobre o PSG nasceu dos pés do brasileiro, que nunca deixou de acreditar.


E, menos de seis meses depois, esse mesmo PSG, que foi personagem da partida que parecia indicar um futuro brilhante de Neymar no Barça, é o clube que encerra a passagem do brasileiro pela Catalunha. Se os 222 milhões de euros são contra as regras do Fair Play financeiro, isso é a Uefa que vai dizer. Depois de tantas semanas vivendo essa novela, chega a ser um alívio saber que o Barcelona terá esse dinheiro em mãos para dar sequência ao seu mercado, enquanto Neymar irá tomar o rumo que tanto queria.


Não acho errado o brasileiro procurar outra equipe. Se é o desejo dele, se é o que ele pensa ser melhor para sua carreira, então que busque isso. Valores exorbitantes à parte, jogadores de futebol são profissionais como a maioria de nós, precisam tomar decisões, sejam elas pelo dinheiro ou pelo desenvolvimento pessoal.


Se ele realmente acha que tem mais chances de ser o melhor do mundo jogando no PSG, então boa sorte tentando. Neymar pode estar no time que for, Messi continuará sendo melhor do que ele. E quando o brasileiro chegou ao Barça, não demorou para dizer que chegava para “ajudar Messi a continuar sendo o melhor do mundo.” Com essa frase, mostrou solidariedade ao time, mas foi pretensioso. O argentino foi muito mais importante para o crescimento de Neymar do que o contrário. Sair da sombra dele pode não ser uma decisão tão boa quanto parece.


Contudo, esses motivos, errados ou não, dizem respeito apenas ao jogador e ao que ele almeja para si mesmo. Sair do Barcelona por essas convicções não prejudica sua imagem. A forma como tudo foi conduzido - já discutida aqui no blog -, as últimas duas ou três semanas de absoluto silêncio do brasileiro no clube, isso sim destrói um legado que estava começando a ser construído. Sua chegada já foi controversa, por tudo que envolveu sua contratação e que levou um presidente a renunciar. Sua saída ocorre da mesma maneira.


Getty Images
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Fim da novela e fim de uma trajetória que poderia ser muito mais longa


Talvez Neymar não tenha noção do papel que tinha no Barça. “Sombra de Messi” é uma visão limitada. Ele já havia sido escolhido por todos como o sucessor do argentino. Messi não é para sempre, uma hora seu corpo não sustentará mais o peso de liderar uma equipe de elite na Europa, e essa função passaria para o seu sucessor.


Quando Neymar foi contratado, era esperado que ele crescesse a ponto de se tornar esse sucessor. Os últimos dois anos provaram que ele é bom o suficiente para isso. Agora, o brasileiro deixa de lado a chance de dividir o protagonismo com o melhor jogador da história e, daqui a alguns anos, sucedê-lo no Barça, para se aventurar em um projeto que quer construir um grande europeu. Essa escolha irá definir qual será seu papel na história do futebol.


Neymar poderia construir uma carreira brilhante no Barcelona, talvez deixando o clube daqui a uma década com status de lenda. Também poderia sair agora e manter sua imagem de ídolo, protagonista de um triplete e de uma vitória inesquecível. Pela forma como sai e pela falta de diálogo com a torcida nas últimas semanas, tudo isso foi pelo ralo. Nem os grandes momentos com a camisa azul-grená são capazes de compensar os erros de um jogador que tratou com descaso o clube que ele muitas vezes disse ser seu sonho defender.


Durante três anos, Neymar foi mais protagonista do Barça do que pode imaginar. Entretanto, a forma como sua saída se arrastou deixa um gosto tão amargo que fará a torcida passar a enxergá-lo como um convidado indesejado nos momentos históricos que viveu no Barcelona.