Campeã em 12 categorias, por que a base do Barça revela pouco para o time principal?

“Já são 12 campeões,” diz o Barcelona no perfil oficial de La Masia no Twitter. Prebenjamín; Benjamín A, B e C; Alevín A e C; Infantil A; Cadete A e B; Juvenil A e B; Barça B. Dos 6 aos 20 e poucos anos, jogadores de todas as idades estão sendo campeões com os times de base do Barça e também com a equipe B, que pode ser considerada uma equipe profissional que é usada para a transição dos jogadores formados no clube.


O sucesso mostra que existe talento e um trabalho que, ao menos até certo ponto, está sendo bem feito. Então, por que o Barcelona é cada vez mais um clube comprador e depende menos da base do que antes? É uma discussão longa, que causa discórdia entre a torcida e até entre aqueles que acompanham o clube de forma profissional, como setoristas ou comentaristas.



Abaixo, os pontos principais dessa discussão que tanto movimenta os bastidores do Barça.


A diretoria


Nem os piores vilões do mundo, nem os mocinhos que salvarão o dia. A diretoria do Barcelona não está em nenhum desses extremos, mas pende mais para um dos lados. Boa parte das ações tomadas pelos que comandam o clube tem como objetivo apenas a autopromoção.


Por exemplo, apelar a todas as comissões e cortes possíveis para que um cartão vermelho seja revertido, mesmo quando ele foi justo, tem pouca motivação no benefício esportivo e mais no próprio marketing. "A diretoria fez tudo o que podia para lutar contra a injustiça que fizeram contra nosso clube, veja como lutamos pelo Barcelona" é a mensagem que eles buscam passar em atitudes como essa.


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A diretoria tem culpa na postura compradora que o Barça assumiu recentemente


Por mais que a torcida do Barça valorize muito os jogadores que saem da base, a contratação do destaque de outro clube tem um peso maior na mídia e, além disso, resulta de uma participação mais ativa da diretoria. Um jogador que chega ao time principal agora, como Aleñá, está na base há tanto tempo que ao menos três presidentes diferentes já passaram pelo clube nesse período. Qualquer grande façanha sob seu nome é creditada à capacidade formadora de La Masia, e não a uma diretoria em específico.


Contudo, se André Gomes, por exemplo, virar o melhor meio-campista da próxima década, quem ganhará o crédito por tê-lo colocado no Barcelona será Bartomeu, Robert Fernández e todos os responsáveis pela sua contratação. Isso fortalece a imagem da diretoria, ajuda a mantê-los no comando do clube. Para eles, o interesse maior é fazer contratações - preferencialmente de peso - para se autopromover, algo que não acontece quando jogadores que saem da base ganham esse espaço.


A comissão técnica


Luis Enrique pode ter acertado muito com o tratamento que teve com Aleñá e Marlon, além de ter dado certo espaço para Samper na temporada passada, além de Munir e Sandro. Contudo, quando o time precisou de algum reforço pontual no meio da temporada e poderia ter recorrido à base, o treinador optou por improvisações.


O caso mais recente foi no final de semana, quando Digne foi improvisado na lateral direita, enquanto Palencia continua sendo ignorado no Barça B. Ainda falando de laterais, o caso mais famoso é o de Grimaldo. Destaque em todas as categorias que passou na base, ele nunca foi notado pelo treinador, que preferiu manter Adriano no elenco até a temporada passada e em certo momento até mesmo improvisou Sergi Roberto na posição, em vez de dar uma chance a um jogador formado no clube e com qualidades evidentes.


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Palencia enfrenta defensores do Anderlecht nas quartas de final da UEFA Youth League


Samper foi emprestado para o Granada e era difícil prever que o resultado seria tão desastroso. Parecia uma boa experiência para o jogador, em um time jovem e com Paco Jémez como treinador. Isso durou poucos jogos, até Paco ser demitido e o clube entrar em um sequência de problemas que resultou no rebaixamento.


O ponto principal é que Samper pouco jogou, enquanto Busquets mais uma vez não teve um reserva direto. Mascherano não se adequa a essa função no Barcelona, e André Gomes e Rakitic já atuaram mais recuados no meio de campo, mas não é a função ideal para eles.


O camisa 5 não jogou em 1381 minutos na temporada pelo Barça. Samper jogou 1.345 minutos no Granada. Ou seja, se Luis Enrique tivesse optado por mantê-lo no elenco, ganharia um reserva apropriado para Busquets e o jovem da base teria ganhado mais rodagem do que durante o empréstimo.


São várias decisões, algumas mais e outras menos óbvias, que mostram uma mudança na forma da comissão técnica tratar a base. Oportunidades para dar espaço para os jovens formados no clube não faltaram. O que faltou foi o interesse em terminar o processo de formação deles, em vez de buscar jogadores “prontos” em outras equipes - o que nem sempre deu certo.


A expectativa


Yaya Touré era e ainda é um grande jogador. Em 2008/09, o meia vivia uma grande fase em sua carreira. Mas ele nunca foi uma lenda do clube, nem um jogador com características únicas. Busquets surgiu na base, foi promovido por Guardiola, mostrou qualidade, se destacou pelo seu posicionamento e inteligência para decidir lances em poucos toques e ganhou a posição, deixando Yaya no banco.


É difícil imaginar isso acontecendo com Samper, por exemplo. Não levando em conta a qualidade do jovem meia, mas simplesmente porque Busquets é um jogador “pesado” demais para sair do time, seja em sua qualidade ou na história que possui no clube.


Além disso, a expectativa que a torcida tinha em 2009 era muito menor do que a de hoje. Apostar em jogadores da base, que são mais propensos a erros do que os mais experientes, era muito mais fácil quando ganhar tudo era visto como uma meta, e não uma obrigação. Se o clube optar por não contratar um lateral direito e apostar por Palencia como titular da posição na próxima temporada, a torcida saberá lidar com as possíveis falhas do jogador até ele estar adaptado ao time principal? É pouco provável que sim.


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É improvável que uma situação como a de Busquets e Yaya Touré se repita atualmente


A transição


Todas as categorias são campeãs, o que mostra que a evolução dos jogadores, saindo do time infantil até chegar ao juvenil, está sendo bem-sucedida. Na atual temporada, o Barça B conseguiu repetir esse sucesso, fazer a transição funcionar novamente. A sequência se quebra ao chegar no time principal, deixando evidente onde está o problema.


O Barcelona está falhando na hora de transformar seus talentos da base em jogadores profissionais, que conseguem competir em alto nível. Não falta talento, mas falta preparação. Uma boa parte disso se explica pela situação do Barça B, que passou duas temporadas sem ter condições nem próximas das ideais para formar um jogador.


Agora, com a equipe em situação melhor, mais organizada e caminhando rumo à volta para a segunda divisão, a filial está voltando a ser uma ponte para o time principal, sem que seja necessário emprestar o jogador para outra equipe para que ele consiga se adaptar a um futebol mais competitivo.


Os empréstimos, ainda que possam funcionar em alguns casos, não são ideais. O Barcelona se vangloria por ser um clube com estilo único de jogar futebol, então é difícil imaginar que atuar em outras equipes do futebol espanhol seja a melhor preparação que um jogador pode ter antes de chegar ao time principal.


Denis Suárez serve como exemplo. Saiu do clube, se destacou no Villarreal, voltou com méritos. Contudo, chegou ao Barça para ser interior, enquanto em sua equipe anterior seu posicionamento era mais pelas pontas. Denis está mais experiente, mas não está adaptado ao jogo do Barcelona. Para isso, o empréstimo não fez uma grande diferença.


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Sergi Roberto serve como exemplo para jogadores que não querem ser emprestados


Sergi Roberto, em compensação, preferiu continuar no Barça, esperou seu tempo e quando começou a ganhar chances no time principal, mostrou um entendimento tático acima da média. Se ele tivesse optado por ganhar experiência em outro clube, essa inteligência para entender o estilo de jogo do Barcelona seria a mesma? É provável que não.


É algo que envolve todo o clube. Dirigentes, comissões técnicas de todas as categorias da base, é preciso um esforço conjunto para que os jogadores sejam melhor preparados para chegar ao time principal. Com um novo treinador no time principal, há uma esperança de algo avançar em relação a isso. A diretoria, entretanto, seguirá a mesma, e é um grande empecilho para o Barça voltar a aproveitar melhor os talentos de La Masia.