Barcelona x Real na pré-temporada é uma enorme burrice

O futebol moderno gira em torno do dinheiro e os clubes fazem de tudo para monetizar suas marcas. Talvez o maior exemplo atual seja o Manchester United, que possui até um parceiro oficial de tintas em seu hall de patrocinadores. O Barça não fica atrás, com 40 (!) patrocinadores, segundo o site oficial do clube, sendo 2 principais - Nike e Qatar Airways, que será substituída pela Rakuten -, 7 parceiros “premium”, 10 parceiros oficiais, 19 regionais e 2 parceiros de outras sessões e esportes além do futebol.


Monetizar a marca, expandir seus mercados, agradar os patrocinadores. É isso o que Barcelona e Real Madrid buscam ao toparem fazer um clássico em 29 de julho, durante uma turnê de pré-temporada nos Estados Unidos. O impacto financeiro será grande e com certeza renderá alguns bons milhões para ambos os clubes. O Barça ainda enfrentará Juventus e Manchester United nessa passagem pela América do Norte.


A turnê será boa para os cofres do clube e também para aumentar ainda mais a presença do Barcelona nos EUA. Esse é o lado empresa, que está funcionando muito bem, batendo recorde de receita e lucro ano após ano. Mas o lado esportivo é o mais importante, ou ao menos deveria ser, e nessa perspectiva a turnê e o clássico acabam se tornando uma grande burrada.


Luis Enrique, após passagem parecida pelos Estados Unidos na pré-temporada em 2015, indicou diversas vezes que não gostava dessas viagens na fase de preparação após as férias, mas entendia o lado do clube. Nenhum treinador gosta e provavelmente os preparadores físicos devem odiar lidar com esse desgaste.


Getty Images
Getty Images

Turnê com clássico: um planejamento que só pensa no dinheiro


Os jogadores estarão de volta das férias há duas ou três semanas, ainda recuperando a forma ideal. E então, no meio dessa preparação, o elenco precisará fazer uma viagem intercontinental. O cronograma dos outros jogos ainda não foi definido, mas tomando a última turnê pelo país como base, cada partida deve ser em uma cidade, o que adiciona mais viagens e mais desgaste, em um período onde o foco deveria ser recolocar os jogadores na melhor forma física possível.


Isso impacta diretamente no começo da temporada. O Barça sofreu demais com lesões no segundo semestre de 2015, muito por causa do desgaste físico provocado pela turnê na pré-temporada, além das duas Supercopas disputadas. É preciso reduzir esse desgaste, mas falta sensibilidade para a diretoria perceber isso.


Quem também não vai gostar nada dessa passagem pelos EUA e ainda nem sabe disso é o futuro treinador da equipe. O ideal seria dar o maior tempo possível para o sucessor de Luis Enrique trabalhar com o elenco completo e aplicar seus conceitos táticos ao time. Porém, esse período muito importante da adaptação ao novo comandante será interrompido por viagens e outros compromissos extracampo com patrocinadores e ações de marketing.


Além disso, não é um jogo qualquer, é um clássico. Mesmo que o jogo não tenha valor algum, é um risco enorme enfrentar o maior rival logo de cara: vencer significa começar o trabalho com moral, mas uma derrota, o que seria normal ao enfrentar um time que já tem uma continuidade de elenco e treinador, poderia colocar uma pressão desnecessária em cima do novo comandante.


Tanto na melhor quanto na pior das hipóteses, sempre haverá um desgaste desnecessário para os jogadores e o novo treinador. Sem contar que um clássico sendo usado como forma de ganhar mais dinheiro com a pré-temporada apenas banaliza a rivalidade, se torna um confronto artificial e desinteressante.


Financeiramente, levar o clássico para outros países é ótimo. Mas o Barcelona não está desesperado por dinheiro. Bem, pelo menos ainda não, enquanto as obras no Camp Nou não começam. Com praticamente todos os jogadores fora de competições pelas seleções no meio do ano, era a pré-temporada ideal para a chegada de um novo treinador, com tempo e tranquilidade para trabalhar. A turnê para os EUA joga esta grande oportunidade no lixo.