Série 'Sou Bahêa!': Bruno Queiroz

"Sou Bahêa!", nova série do blog Nasci para Vencer! está na área! Depois de algumas ideias, queria trazer algo inovador, diferente, em que o entrevistado mostre uma afinidade imensa coma torcida do Bahia e que a paixão pelo clube está acima de tudo.

Pra começar esse projeto, a primeira pessoa que veio à mente foi meu grande amigo Bruno Queiroz, colunista do jornal Correio da Bahia. Bruno relata a diferença entre torcer e ser profissional e ainda manda recado pra torcida. 


Bruno Queiroz
Bruno Queiroz


Bruno, obrigado pela atenção ao blog Nasci Para Vencer! e parabéns pelo trabalho sério que faz no Jornal Correio da Bahia. Darino Sena finalmente abriu as portas dizendo ser torcedor do Bahia publicamente e você seguiu o mesmo caminho, mesmo bem mais reservado. Como você consegue separar o lado jornalista do Bruno torcedor?

Primeiro, é um grande prazer ser entrevistado pelo seu blog e falar diretamente com a torcida do Bahia. Antes de Darino assumir ser torcedor do Bahia, eu já havia exposto a minha preferência clubística. Claro que Darino, que é meu amigo, é um cara de televisão e a exposição que ele sofre é muito maior, o que ele fala repercute muito mais e eu entendo a demora e ponderação dele em admitir esse tipo de questão. Televisão é um veículo muito cruel pois te coloca como alvo direto do público o tempo todo. Eu nunca neguei ser torcedor do Bahia, mas nunca deixei que isso influenciasse o meu trabalho. Quando iniciei, o primeiro clube que cobri foi o Vitória, por 2 anos, num site que Elton Serra tinha, o futebolbaiano.net, que depois virou arenanordeste.com. Mas vejo com muita tranquilidade essa questão. Quando me perguntam, eu digo o time que torço. Tomo meus cuidados em redes sociais, por conta da minha profissão e sempre respeitando muito os outros clubes. Quando estou de folga, gosto de comprar meu ingresso, ir aos jogos, é algo que eu sinto falto e acho que muitos que trabalham na área também sentem. Separo dessa forma. Vou à Fonte Nova, visto a camisa, afinal, é meu horário de lazer, de folga e não vejo problema nisso. Enquanto estou trabalhando, me mantenho com a imparcialidade devida, ao menos em busca disso. É assim que deve ser.
 
Como foi sua experiência na TV Bahêa? Existe uma grande diferença hoje em um mundo bem mais conectado?


Rapaz, eu entrei na TV Bahêa muito jovem, tinha 21 anos apenas. Foi uma experiência incrível, que me engrandeceu demais profissionalmente. Acho que todo jornalista, principalmente os setoristas de clube, deveriam ter passado antes lá dentro para entender como as coisas funcionam. Não é fácil gerir, viver o dia a dia de um clube como o Bahia. É tudo muito sofrido. Trabalhei numa época em que os salários ainda atrasavam, haviam muitos problemas. Hoje, pelo que sei da atual administração, essa parte está sendo cumprida com rigor, os funcionários estão felizes, o que é muito importante. Na época, eu como repórter da TV do clube, viajava com a delegação para todos os jogos, concentrava, fazia as mesmas refeições dos atletas e comissão técnica, era muito bacana. Vivia de fato o dia a dia de um jogador, só não entrava em campo.

Hoje, a rede social é muito mais forte do que há seis anos e a comunicação interna é muito importante, e acho que o Bahia faz muito bem. De dentro, você consegue também identificar as verdadeiras pessoas. Algumas que você gostava enquanto torcedor, mas que no dia a dia percebe que são personagens na frente das câmeras. Joel Santana era assim. Um cara extremamente vaidoso, mas que fazia de tudo para não se indispor com jornalistas. Deixava a parte ruim para nós (assessoria). Uma vez, no Serra Dourada, após o Bahia ter vencido o Atlético Goianiense por 1x0, o pessoal das rádios de Salvador estava com problemas técnicos para fazer a coletiva e pediram que eu levasse Joel até o campo. Eu fui falar com ele e ele me disse: "Você acha que se fosse o Luxemburgo ele subiria?". Eu olhei para ele e disse: "Eu não sei, pois eu nunca trabalhei com o Luxemburgo, mas, se você não quiser dar a coletiva, basta falar que eu aviso ao pessoal da imprensa". Ele, mesmo a contragosto, subiu e deu a entrevista dele. Enfim, trabalhar no clube foi uma das maiores experiências profissionais e de vida, sem dúvida.


Um dos testes de um jornalista é narrar ou comentar jogo do rival. Já houve ocasiões em que pensou em negar um trabalho pela paixão de torcedor?

Não, jamais. O futebol precisa de respeito e todo jornalista, enquanto formador de opinião, não pode ter esse tipo de atitude ou proliferar isso. Obviamente que um jogo decisivo, do seu clube de coração, mexe um pouco mais com você. O cara que escolheu trabalhar com esporte, ser jornalista esportivo, ele foi movido por uma paixão. COmigo não foi diferente. Vou na Fonte Nova com meu pai desde os 3 anos, era a programação que mais gostava de fazer. O futebol me move desde então. Até campeonatos de video-game de futebol eu disputei e continuo disputando. Tudo que envolve futebol e Bahia principalmente sempre me interessou. Fazer jogo do Vitória, do rival, é muito bom também, principalmente quando eu fico de folga nos jogos do Bahia e posso ir ao estádio torcer. Isso é tranquilo.


O que falta para o Bahia estar entre os grandes do futebol brasileiro? Como você avalia o trabalho do Marcelo Sant'Ana?

Falta muito, mas falta menos do que faltava há dois anos. O Bahia se profissionalizou a partir da gestão de Marcelo Sant'Ana. Claro que tudo se iniciou através da torcida, no processo de intervenção que salvou o clube. E salvou mesmo. Projetar o Bahia antes da intervenção era complicado, a gente só enxergava um futuro cruel. Hoje não. Mas não é num piscar de olhos que tudo vai mudar. O resultado do futebol sempre caminha ao lado de qualquer gestão. Não dá para abdicar de jogar num ano, resolver toda parte estrutural, financeira, administrativa e só depois entrar em campo. Primeiro ano de gestão de Sant'Ana sofreu com isso. Ele e sua equipe, Marcelo Barros, Vitor Ferraz, Eder Ferrari, Pedro Henriques, Alexandre Faria, tiveram que abdicar de maior investimento no futebol para reerguer o Bahia e organizar as coisas.

Acho que o Bahia está no caminho certo, mas os erros no futebol ainda têm sido grandes. Falar em tricampeonato no momento ainda é cedo. Acho que Marcelo já evoluiu muito enquanto gestor e era natural que isso acontecesse no decorrer do seu mandato. Qualquer um no lugar dele cometeria falhas no início. No futebol existem coisas que você só aprende com a vivência, por mais capacitado que você seja. Vejo o Bahia com um futuro promissor. O próximo grupo que assumir após as eleições, seja ele da situação ou não, terá em mãos o Bahia em outro patamar e muito mais preparado para competir do que antes. 

Qual o conselho você dá para os jornalistas que estão começando agora? 


O jornalista tem que prezar sempre pelo seu nome. É isso que está em questão. Seus princípios, sua dignidade, sua imagem, seu caráter. Errar, todos erram. Já dei minhas barrigadas, como já acertei muitas informações também. É da profissão, é da vida. Mas os seus princípios são o que te direcionam para o caminho certo. Ser profissional é ser um apaixonado também, independente de qualquer coisa. Exercer sua função com paixão é muito melhor, mais prazeroso e gratificante. O resultado é melhor também. A responsabilidade se adquire na vivência, nos estudos, na experiência. Não tem fórmula. O único conselho que eu daria aos estudantes de jornalismo e que querem seguir na área esportiva é para estudarem, se dedicarem e serem honestos consigo mesmo e com seu público. Jornalismo é uma área muito prazerosa, encantadora, oportunidades vão surgir demais quando você está na função, de todos os tipos. Basta escolher os caminhos certos. Rico você dificilmente vai ficar, mas vai ser muito feliz, sem dúvida.


Além de torcedor do Bahia, você também é sócio?  Qual sua visão em relação ao programa atual, com pouco mais de 10 mil adimplentes?

Eu não sou sócio do clube. Acho que incompatibiliza com meu trabalho. O plano de sócios do Bahia ainda não chegou ao ponto ideal. Fidelizar vai muito além de um padrão. É preciso entender o que o torcedor do Bahia quer, o que o motiva. Se é ir ao jogo apenas, se é ter vantagem, descontos, se é tudo isso. O plano do Bahia já melhorou, mas pode melhorar ainda mais. Claro que os resultados no campo têm que ajudar para o torcedor se associar. Se está disputando grandes competições, os estádios enchem, a dificuldade de comprar ingresso aumenta e ele percebe a importância de ser sócio para ter vantagens, prioridades, enfim. É um conjunto que precisa estar afinado. O Bahia está em busca, mas não tenho dúvida que pode melhorar seu plano a partir do momento que entender de fato quais são as necessidades e prioridades do seu torcedor enquanto sócio.

Pra finalizar, gostaria que mandasse um recado para a torcida tricolor


Eu queria somente agradecer a você pelo convite da entrevista e ao torcedor do Bahia pelo carinho que tem comigo principalmente nas redes sociais, no Twitter principalmente, onde sou muito ativo. O torcedor do Bahia é um tipo incrível, apaixonado, curioso, zeloso. Já vivi momentos complicados e tive deles palavras de incentivo. Que continuem torcendo por esse clube gigante e manifestando todo seu amor, pois o futebol e o mundo precisam disso. Um grande abraço e Bora Bahêa Minha Porra!