Atlético-PR x Léo: por que a culpa é sempre do jogador?

O caso envolvendo o lateral-direito Léo na noite desta quarta-feira ainda não tem uma resolução concreta. No entanto, é inevitável que tenhamos preocupação, por uma série de motivos. As coisas no Atlético tendem a tomar uma proporção gigantesca no extracampo, pela mania do clube de sempre “culpar o jogador” e responder através de seus meios de comunicação oficiais de forma infantil e amadora, não tendo a menor noção de gerenciamento de crise.


Vamos começar falando de Léo. Quando Jonathan chegou, no final de 2016, era impensável, àquela altura, que o novo reforço teria condições de “destronar” o então titular na lateral-direita. Léo vinha de uma temporada magnífica, retornando ao Furacão após dois anos ruins, colecionando decepções em Flamengo e Internacional. Decepções essas que partiam tanto do físico, com muitas passagens pelo departamento médico, quanto técnicas, tendo questionamentos evidentes de ambas as torcidas.


Seu caso realmente parecia ser de alguém que nasceu para jogar no Atlético-PR. Quando chegou, em 2013, era um desconhecido, que aos poucos foi ganhando espaço dentro do clube através de personalidade, agressividade (no bom sentido, na maioria das vezes) e pelo diferencial técnico. Um lateral que não apela constantemente para cruzamentos, tendo recurso do drible e defendendo muito bem.


Gazeta Press
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Identificado com a torcida, Léo sempre correspondeu em campo


Se estabeleceu no Atlético, sendo símbolo de determinação, e só voltou a apresentar futebol de bom nível justamente quando retornou ao clube. Em 2016, argumenta-se que ele jogou ainda mais que em 2013, evoluindo na questão do equilíbrio tático e sem perder os méritos ofensivos. Mandou Eduardo para o banco (e posteriormente o “obrigou” a buscar espaço em outra equipe) e não deu brecha para Rafael Galhardo, que passou a maior parte do tempo sem jogar.


Agora, voltando ao ponto de partida, quando Jonathan foi citado. É modéstia dizer que se ele “apenas” se estabeleceu na equipe titular. Além disso, Jonathan vem sendo o jogador mais regular do Furacão na temporada, tendo um perfeito equilíbrio entre ataque e defesa. E, acima disso, sendo uma grande ameaça ofensiva, algo raro para um lateral, já tendo distribuído assistências e também criado diversas situações. Sua postura, com a cabeça em pé e não desperdiçando a bola com cruzamentos tolos, é admirável.


Nesse sentido, vemos um problema muito claro na gestão de grupo, com uma comissão técnica que não soube sustentar uma situação de disputa, de ter dois atletas qualificados para um mesmo setor. E talvez seja essa a única posição em que temos (ou tínhamos) esse “luxo”, pois, de resto, nosso elenco limita-se a opção pontuais. Era tão difícil assim dar a Léo uma oportunidade na lateral-esquerda, onde não temos nenhum jogador com condições de ser titular? Ou mesmo propor um rodízio nos jogos da equipe titular, visto que Léo merecia esse reconhecimento.


Divulgação
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Saída de Léo é uma pena. Para o clube e para o jogador


E, mesmo considerando essas hipóteses, que seriam até razoáveis para um jogador com o “porte” de Léo dentro do elenco, fica difícil acreditar na versão do clube, de que o jogador não aceitou a suplência. De forma desrespeitosa e despreparada (e não é a primeira vez que isso acontece), o Atlético soltou uma nota oficial levantando críticas ao atleta. Abre aspas:



“O Clube Atlético Paranaense esclarece à torcida atleticana que o atleta Leonardo Moreira Morais (Léo), ao contrário do seu discurso nas redes sociais, demonstrou má vontade e teve condutas antiprofissionais, que atingiram não só a Instituição, mas o compromisso que todo atleta deve ter como profissional


Em decorrência da constante insatisfação demonstrada pelo atleta com a suplência, assim como visando a preservação de um ambiente saudável no grupo atleticano, a Direção e a Comissão Técnica decidiram pela mudança do projeto desportivo do jogador no Clube.
A decisão levou em conta também a insatisfação demonstrada pelo grupo de atletas do Rubro-Negro, com a postura de Léo nos treinamentos e jogos.”



A atitude desesperada, visando responder o atleta que horas antes havia dito que estava se despedindo do Atlético-PR contra a sua vontade, entrega a falta de preparo, de maturidade para resolver assuntos internos e também indica que o clube não tem a menor condição de solucionar uma crise sem dar “show”. E ainda, reforçando, tem dificuldades em lidar com uma situação simples de elenco e rotatividade.


Mesmo que ainda não tenhamos “certo” ou “errado”, devemos agradecer Léo por toda sua entrega e compromisso com o Atlético-PR. As acusações contra o atleta são desproporcionais a tudo que ele mostrou ao longo de suas passagens. E, caso seja provado que ele esteja errado, é até possível ponderar, visto que o jogador foi tratado com descaso este ano, mesmo podendo ser aproveitado de múltiplas formas.


E, para o Atlético, um olhar de reprovação. Na maior parte das vezes, a postura fora das quatro linhas é elogiável, e todo o progresso ao longo das últimas décadas mostram isso: um clube pé no chão, que busca ampliar seus negócios e crescer sem correr o risco de levar grandes tombos, dando tempo ao tempo. Mas que ainda não aprendeu a sentar e conversar civilizadamente com os seus atletas. Algo primitivo.