Atlético e Flamengo: acerto de contas na Copa do Brasil

Se o amigo quer mesmo saber, digo e afirmo: me acostumei a ser feliz. Tal qual o pito e o pulmão do caipora, a cangibrina e o fígado do cachaceiro, meu coração se vê faceiro na companhia da felicidade. Deseja a alegria ardentemente em suas artérias. Está viciado nesse trem de sorrir e festejar.


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Por anos e anos, evitei experimentar o contentamento. As emoções que conviviam com meu calejado coração eram a esperança seguida da decepção. Assim segui, imaginando como seria a minha reação se as algemas que me prendiam à tristeza fossem abertas. Da caverna fiz morada e da luz, minha escuridão.


Eis que o pênalti, fantasma maldito e de bigode que insistia em me assombrar desde 1978, resolveu mudar sua moda. O que era contra o entrou. O que era nosso se encontrou com o filó. Riascos partiu de mãos dadas com a minha angústia pra nunca mais voltarem. Victor defendeu o meu sorriso com sua canela abençoada. 


Vieram Libertadores e Recopa. Agora, tem uma tal de Copa do Brasil que resolveu bater na minha porta. É pra me deixar contentão? Tô quereno!


Ela veio assim como quem estava disposta a ir de cara para o rala e rola. Contra o Palmeiras, foi pegação nervosa na balada. Nem perguntou o nome e já foi logo de língua na garganta. “Vamos para a minha casa ou para a sua?” Foi sapatada na peteca em São Paulo e em BH.


Na sequência, o Corinthians e um mané bailarino. Um primeiro jogo para esquecer. Um segundo jogo para ser contado em verso e prosa. O gol adversário no começo, os quatro gols alvinegros na sequência. Mineirão em chamas, meu coração, também.


É chegada a hora da semifinal. Do lado de lá, o Flamengo. Talvez o maior responsável pelo dark side of the moon que me aprisionou por tanto tempo. Os brasileiros de 1980 e 1987, o Serra Dourada, o gol olímpico de Pet. Marcas profundas, atenuadas pelos alívios cômicos de 2004 e 2008. Salve, 6 a 1. Castillo, Renan Oliveira e Leandro Almeida, aquele abraço.


Como uma escadaria do Bonfim, quero lavar minha alma. Na encruzilhada da vida, vou depenar mais uma ave agoureira que sobrevoa minha cabeça. Para garantir a vaga na final da Copa do Brasil 2014, acertaremos as contas com o time da Gávea e o seu pofexô.


Venha cá, urubu, que quero lhe usar.