O que deu errado na gestão do Galo em 2017?

Getty
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A provocação de uma cruzeirense, ao final do jogo, via Twitter, me fez esperar as primeiras 24 horas após a eliminação da Libertadores de 2017 para escrever meu texto. Ela disse: ‘fique tranquilo, amanhã continuará doendo’. Ela tinha razão.


Conhecedora dos flagelos das eliminações acachapantes, como para o todo poderoso Once Caldas, ela tinha razão. Dói até agora a perda da vaga às quartas de final para o humilde Jorge Something, time que fez parar o ataque de seleção brasileira (em minúsculas, mesmo) em Copa do Mundo do Clube Atlético Mineiro em pleno Mineirão.


Ataque de seleção. Copa do Mundo. Mineirão… Entendeu a ironia do destino?


Optei por esperar o tempo necessário para absorver a realidade, digeri-la e conseguir me expressar sem que as palavras chulas me escapassem por entre os dedos. Corria o risco de escrever um texto tão patético quanto a entrevista coletiva de Rogério Micale - o menos culpado, diga-se - e do presidente Daniel Nepomuceno. Aliás, foi justamente vendo o presidente tentando articular respostas e concatenar o raciocínio de forma tão habilidosa quanto o Robinho de 2017 que me motivou a esperar. Eu poderia escrever uma crônica menas capaz de dar vazão aos demônios que me atormentaram desde o fim da partida de ontem.


Não me espantou a desclassificação do Galo para um time boliviano, fato inédito ao futebol brasileiro dada à falta de tradição do honrado povo andino no esporte bretão. Afinal de contas, há pelo menos 45 dias vínhamos alertando neste blog sobre as decisões equivocadas da diretoria e comissão técnica alvinegra quanto aos rumos do futebol.


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Bruno Cantini/ Atlético
Bruno Cantini/ Atlético


Me assusta, na verdade, é como chegamos até aqui, nessa queda não só de rendimento em campo, mas de capacidade de planejar, executar, controlar e agir dentro e fora das quatro linhas.


Não me refiro às questões burocráticas da administração Nepomuceno, visto que ele herdou uma máquina azeitada pelo ex-presidente Alexandre Kalil. Os recordes de arrecadações e filiações ao programa de torcedores, bem como o equacionamento das dívidas do clube estão sendo colhidos hoje de sementes plantadas no passado recente. E há que se dar, por merecimento e reconhecimento, louros à manutenção das tais práticas.


Mas o negócio principal de um time é o futebol, e, como disse o distinto professor e administrador Denilson Rocha, ‘a gestão só é boa se o core business dá resultado. Em um clube de futebol, pode fazer milagre na administração, mas não é nada sem resultado em campo’. Ele tá certo. A gestão atual me faz lembrar aquelas empresas que montam parques industriais modernos, repletos de equipamentos de ponta e profissionais bem remunerados, mas o que produzem é uma bosta.


‘Mas o planejamento foi muito bem feito’, repete irritantemente o presidente…


Primeiro, vale lembrar que o planejamento é a primeira etapa do processo, mas não é o único e nem o principal motivo de sucesso ou insucesso. Há o planejamento, a execução, checagem e controle, e as ações corretivas, o famoso PDCA (Plan, Do, Check/ Control, Act). Logo, presidente, além do planejamento não ter sido tão bem feito assim, não houve controle e nem ações corretivas. Toda a cadeia da sua gestão está equivocada. Ou estava no seu alinhamento estratégico as eliminações da Copa do Brasil e Libertadores? Você planejou a nossa atual colocação no Brasileirão? Porque é aqui, na prática, onde estamos.

Suas convicções sobre o modelo de futebol a ser implantada no Galo são tão frágeis quanto a sua habilidade de comunicá-las. As mudanças de técnicos e de filosofias retratam bem isso. E o mais triste, Daniel, é que você trata os que apontam falhas como anti-atleticanos, colocando seus diretores para atiçar as arrobas assassinas pelas mídias sociais.


O ano de 2017 pode ser o último da gestão Nepomuceno e, talvez, o fim da sequência de participações do Galo na Libertadores. Para que possamos ir pela sexta vez consecutiva para a competição continental, esses jogadores precisarão driblar suas próprias limitações, bem como a falta de rumo que tomou de assalto a sede de Lourdes. Para que eles e seus líderes possam encontrar mais uma vez o norte, precisarão aprender o significado do termo feedback, de guarda e narizes baixos. Afinal, não falam tanto em gestão?


Se Daniel Nepomuceno continuará ou não no cargo, dependerá da política alvinegra e do desejo dele. Da minha parte, só espero que ele aprenda com os perrengues pelos quais está passando e seja feliz. Inegável que tem amor pelo Atlético e que parece um sujeito de bem. Mas, como gestor máximo de um clube de futebol, há muito para caminhar.


Quanto a nós, resta-nos apoiar esse time no que falta para o fim do ano e torcer por um G6 desejado - e até aqui, improvável. No mínimo, alcançar os 46 pontos. À minha conselheira azul, cabe se refestelar com a nossa tristeza e aguardar o jogo do seu time pela Libertadores, marcado para… é… deixa eu ver…