Atlético, uma nau à deriva?

Getty Images
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Já sem palavras para descrever a situação do Clube Atlético Mineiro, “que tava bom, com certeza já tava bom, a gente queria mudar para melhor, mas não tava muito bom, tava meio ruim também, tava ruim, e agora parece que piorou”, recorri a algumas estrofes dos Engenheiros do Hawaii. Para ser sincera, não espero de você mais do que educação em considerar legítimo esse pequeno e amargo desabafo de quem acredita que é melhor tocar o alarme do que ficar a ver navios. 


Nau à deriva
No asfalto ou em alto mar
"Perigo, perigo"
Perdidos no espaço sideral
Apocalipse now
À deriva


Olhando apenas para os números, não estamos tão mal assim, e podemos terminar o ano melhor do que todo mundo, diga-se. Campeões Mineiros em cima do rival, classificados em primeiro lugar geral na primeira fase da Libertadores, classificados na Copa do Brasil e ocupando uma mediana posição no concorrido Campeonato Brasileiro – que poderia ser pior, a gente sabe.


O problema é a atmosfera. É o clima. É o viés de baixa. Para além da demissão de mais um técnico em tão pouco tempo, saber de desentendimentos internos, que há uma falta de comando geral no Clube, tirou o atleticano de um barato profundo, só permitido a quem já colocou a embarcação no rumo e pode relaxar um pouco ao sabor das ondas. De uma ora para outra, parece que a era Kalil não deu prosseguimento, foi mascarada por ótimas contratações e só. Perceber-se numa nau à deriva trouxe de volta medos, traumas e inseguranças ao atleticano. Um perigo.


Um dia desses
Num desses encontros casuais
Talvez a gente se encontre
Talvez a gente encontre explicação


No papel, é um elenco de botar respeito, sim senhor. Não à toa, elenco forte é um argumento que sai fácil da boca de qualquer analista que se proponha a falar do Galo. Tente dialogar com algum outro postulante ao título para tirar a prova. Ou vejamos: temos Fred, Robinho, Cazares, Elias, Marcos Rocha, Leo Silva, Victor titulares, e o luxo de ter Rafael Moura e Valdívia no banco – que poderiam ser titulares de muitos outros clubes brasileiros. Claro, há a questão do desequilíbrio, e o meio para trás tem balançado muito.


Há peças faltantes, sem contar o problema das contusões. Ok, são todos ótimos motivos, mas nenhum deles consegue explicar tantas derrotas em casa. Quem já teve o lendário Mexerica no time sabe que não é preciso muito para ganhar em Belo Horizonte, que a torcida empurra e o time costuma corresponder. Sempre foi assim. É uma incógnita que de uma ora pra outra não seja mais. Ir de “Caiu no Horto, tá morto” para “Time sem vergonha” em tão pouco tempo não está fazendo o menor sentido na cabeça do atleticano. Não há uma única explicação incontestável.


Todos sabem
Que tanto faz
Ser culpado
Ou ser capaz
Tanto Faz...


A culpa era do Levir, e sua teimosia, sua pouca paciência com jogadores estrela? A culpa era do Aguirre e suas mudanças ousadas que não pareciam fazer o menor sentido? A culpa era Marcelo Oliveira, que não fazia o time jogar como fez o Cruzeiro? A culpa é do Roger, que parecia não ter o time na mão, já que ora os jogadores faziam ótima partida, ora pareciam nem querer entrar em campo? A culpa é do Kalil, que levou o Nepomuceno para a Prefeitura? A culpa é do Nepomuceno, que não demonstra o pulso firme do seu antecessor e parece não conseguir o mesmo compromisso por parte dos jogadores? A culpa é do André Figueiredo, que teria pressionado o Nepomuceno a despedir o Roger? A culpa é do elenco supostamente mimado, que não quer saber de nada com a dureza do Brasileiro? A culpa é da torcida, que age mais como consumidora do que como torcedora ultimamente? De quem é a culpa?


Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Eu posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza


“Futebol é uma caixinha de surpresas. Futebol é imponderável. No futebol não há receita infalível. Futebol não é pura matemática.”. Precisam nem dizer. A gente já viveu na pele uma Selegalo que nos envergonha, e já teve plantéis muito limitados que horaram nossa camisa com muita raça e amor. Fomos ao topo e ao inferno, já vimos de tudo um pouco. Mesmo com um time forte no papel, dificilmente teremos certeza de que vai dar certo em campo. Mas um mínimo de norte é pedir muito?


Nesta segunda-feira fez quatro anos que levamos a taça da América. Uma conquista narrada em verso, prosa, tatuagem e vídeo no youtube. Parece que foi ontem, e ao mesmo tempo vai ficando cada vez mais distante no horizonte. O que nos aguarda até o fim do ano será determinante na nossa caminhada de se manter no topo ou voltar aos altos e baixos de outrora. Infelizmente, não depende só dos nossos gritos e plenos pulmões. Em julho de 2017, torcer volta a ter mais de um significado. Para além de apoiar, significa desejar e aguardar. 


Em livros de histórias seremos a memória dos dias que virão.
Se é que eles virão.