É o hino do Galo que você está escutando, Thiago Neves

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Ele leva a mão ao ouvido e desafia os presentes. 'Há alguém que queira dizer alguma coisa? Cadê aquela vaia, aquele barulho de cinco minutos atrás?’, pergunta o jogador. Thiago Neves acaba de fazer o gol que inaugura o placar do clássico mineiro e se dá por satisfeito. Sua parte está completa, pensa, e já é hora de tirar um barato com a cara da galera.


Thiago não é o primeiro do clã dos Neves a celebrar uma vitória aparentemente garantida. E, da mesma forma que outros de mesmo sobrenome em Minas, Thiago também se daria muito mal minutos, horas e, quem sabe, meses e anos depois. Afinal de contas, 'quem não conhece o seu esquema?' O Galo, conhece. Roger Machado, conhece. Até o Procurador Geral da República, o atleticano Rodrigo Janot, conhece. Thiago provocou por se achar acima do bem e do mal, longe de qualquer revés. Lá estava a bola que pune para dizer: ‘Ah, é assim? Assim, não!’


O futebol não está dissociado da vida. O futebol é essa vala comum para onde levamos nossas esperanças, projetando em nossos clubes a imagem de nós mesmos, enxergando-no bem-sucedido invencível, altaneiro. Mas também levamos para as arquibancadas as nossas frustrações e medos, nossos limites e preconceitos, que despertam o que há de melhor e pior de nossas almas. As faixas discriminatórias que pseudo-atleticanos colocaram no entorno do Independência, querendo ofender nossos rivais com mensagens pejorativas à comunidade LGBTT, são um exemplo pronto e acabado do que há de pior no comportamento de matilha. Na surdina do anonimato, banalizam o mal. E mesmo que a diretoria atleticana não conteste tal ação, endossando-a pelo silêncio, a instituição centenária do Clube Atlético Mineiro é muito maior do que esse gol contra.


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Porque ontem, depois da provocação precoce de Thiago Neves, atletican@s de todas as orientações sexuais vibraram com a cobrança magistral de Cazares que empatou a partida, com a jogada de linha de fundo do garoto Alex Silva e finalização do experiente Fred, e com mais uma assistência do camisa 10 atleticano para o cabeceio certeiro do mito da camisa 9.


Bruno Cantini/ Atlético
Bruno Cantini/ Atlético


Há quem ache que a graça do futebol está morrendo com o fim das piadas racistas, homofóbicas e/ ou machistas. Não faço ideia do que seja engraçado para cada indivíduo. Para mim, engraçado mesmo é ver Mano Menezes desacorçoado na beira do gramado, sem vontade de mexer no time, de sugerir alteração e sequer dar esporro no árbitro. Ou ver o Fábio em cada uma das imagens pós gol, aquele olhar de menino bom contrariado pela avó, uma vontade incontrolável de chorar após ouvir “na volta a gente compra”. Ele sabe que não voltará, nem para comprar e nem para reverter o placar. Graça mesmo tem em ler os comentários do post anterior, onde cruzeirenses precoces como o Thiago Neves davam como certa a vitória, e diziam que vitórias com menos de 2 gols de diferença eles nem comemorariam.


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Futebol tem muita graça e a freguesia com a qual nos brinda o Cruzeiro é uma das maiores delas. Se tudo na vida do atleticano é difícil, jogar contra o time do Barro Preto é o nosso alívio cômico, o nosso desestresse,o beijo na pessoa amada - e o amor é universal. Thiago Neves entra para a estatística de mais um cruzeirense contrariado em Minas Gerais, assim como já foram muitos Goularts na vida. A música que agora escuta em seus ouvidos atentos é o hino do Galo cantado a plenos pulmões. De todas as vozes alvinegras, independentemente da sua orientação.


3 a 1 fora o baile e graças ao apagão do estádio em seus minutos finais. Foi uma alma caridosa quem desativou o disjuntor dos holofotes. Porque cabia mais no gol de Fábio. Mas, de qualquer forma, o Independência às escuras permitiu lindo funeral. Como disse Jarbas Lacerda no Twitter. “E agora é assim: morreu no Horto, a gente aproveita e já faz o velório!” Falta só enterrarmos o preconceito.


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