São Paulo: a água benta que cura as feridas do Galo

O futebol é um grande espetáculo, talvez o maior da Terra. Eventualmente uma eleição de Papa ou uma coroação de monarca britânico pode tirar o foco do que acontece entre as quatro linhas. Contudo, vestido o solidéu branco e entronado o bem-nascido, até mesmo eles irão procurar saber como foi a última rodada de seus respectivos campeonatos. O Papa é atleticano.


Mas até mesmo esse evento de imensurável magnitude deveria parar quando acontecimentos tão pertinentes à sua rotina acontecem, como o linchamento de torcedores do Corinthians, em Curitiba, executados por adeptos do Coxa Branca, na manhã desse domingo. Por mim, as rodadas deveriam ser imediatamente suspensas ante à notícia de confusão entre aficcionados no entorno dos estádios. Contradizendo o saudoso Freddie Mercury, sim, o show deve parar. Não é possível mais aceitarmos verdadeiros suplícios e travesti-los de ‘brigas de torcedores’. Há crimes configurados ali e os relevamos, banalizando perigosamente o mal.



Não cancelaram a rodada e lá fomos nós para mais um Galo e São Paulo em pleno Morumbi. Camisa de frio em um dia de sol senegalês cobrindo o manto alvinegro, evitando, assim, entrar para as estatísticas da violência do futebol. Eu e a esposa, um tanto ressabiados depois da traulitada levada em pleno Horto na rodada passada, quando perdemos pro Furacão por 1 a 0, mesmo jogando com um jogador a mais durante todo, eu disse TODO, o segundo tempo.


Posso dizer uma coisa? Pode parecer superstição minha, mas das vezes que fui ao Cicero Pompeu de Toledo ver o Galo jogar e que meu amigo Mario Marra comentou o jogo pela CBN, o Galão faturou o boleto. Foi assim na Libertadores de 2013, 2 a 1. E assim aconteceu hoje, pelo Brasileirão, e pelo mesmo placar. Dessa vez sem Ronaldinho Gaúcho, mas com Cazares. Sem Tardelli, mas com Luan. Como disse um amigo no Twitter: Ronaldinho é deus, Luan é filho e Cazares é o espírito santo.


Bruno Cantini/ Atlético
Bruno Cantini/ Atlético


Há uma espinha dorsal no Galo que, quando intacta, não deixa o time envergar: Victor, Leo Silva, Marcos Rocha, Elias, Cazares e Luan. Espeta essa galera lá e completa com quem tá fora do departamento médico e veremos um time aguerrido e com qualidade. Sempre que nos falta um desses, ficamos capengas de algum lado. Sem Marcos Rocha ficamos comprometidos com a saída de bola e, se com ele, temos uma avenida, sem ele temos uma ‘Autobhan’, a freeway alemã sem limite de velocidade. Sem Luan, não temos o pavio que detona o ‘eu acredito’ em campo. Sem Leo Silva, não temos um capitão de trincheira capaz de chegar junto até mesmo num velho companheiro de time, hoje adversário, e levá-lo a nocaute, impedindo que a 'lei do ex' seja consumada.



Aliás, você sabe por que a 'lei do ex' não funcionou e o Pratto não fez gol no Galo, hoje? Porque ele ainda não é ex. E talvez jamais seja. O Urso é tão Galo quanto qualquer um de nós!


Assim, saímos do velho Morumbi com 3 pontos na algibeira, como sói acontecer quando enfrentamos o Tricolor em seus domínios. E, aqui, fica o registro: não há melhor lugar para ser torcida adversária em todo o Brasil. O São Paulo é um exemplo de respeito ao torcedor que viaja para ver o seu time jogar. Diferente do Palmeiras, que cobra R$110 do adversário e o coloca em local de péssima visibilidade, diferente do Corinthians que cobra outra fortuna e muitas vezes vende o ingresso destinado ao visitante para o seu próprio torcedor, o São Paulo cobra preço popular (R$30 a inteira e R$15 a meia entrada) e costuma atender com cordialidade e respeito o rival. Parabéns e obrigado, pessoal.


E, claro um agradecimento extra ao time de Rogério Ceni por nos fazer acreditar mais uma vez de que é possível jogar um futebol de alto nível. O que vimos hoje enche nossa cachola de esperança. Foi uma água benta em nossas feridas contraídas nos últimos jogos. Afinal, essa é apenas a segunda vitória num campeonato que já tem 8 rodadas. E de água benta nosso amigo da camisa 01 entende muito bem. Ah, 2013, de queridas lembranças. Valeu, M1to!


Bruno Cantini/ Atlético
Bruno Cantini/Atlético