Quando nos faltar futebol, que não nos falte Fred

Eu já vi o Galo ganhar uma Copa Libertadores diante dos meus olhos, num Mineirão em transe, como se toda a energia de um povo, acumulada em anos de vigília, fizesse o concreto do estádio flutuar. Nada, neste plano ou em qualquer outro universo paralelo, será capaz de igualar o que sentimos na noite de 24 de julho de 2013. Nem a vindoura conquista da Libertadores de 2017, que nem começou mas já considero, terá tal poder. Serão amores diferentes! Há emoções e emoções. O futebol é repleto de contrastes. Futebol de raiz nos estádios sul-americanos que confinam as torcidas visitantes em verdadeiros chiqueiros rodeados de arame farpado, ou futebol nutella os estádios europeus com sistema de aquecimento nas arquibancadas, ambos têm suas belezas.


Quis o destino me ver distante do Galo em seus dois primeiros jogos da Libertadores. Curiosamente, vendo outros jogos pelo torneio equivalente ao latino- americano.


Ainda em fevereiro pude ver, de corpo fechado com o manto alvinegro no peito e o cachecol atleticano no pescoço, dois grandes espetáculos do esporte bretão em plena Europa.


Sempre ouvi dizer que a equipe mais parecida com o Galo em Portugal era o Sport Lisboa e Benfica, time centenário e do povo. Como estava em Lisboa na ocasião, vi SLB enfrentar, pelas oitavas de final da Champions League, o Borussia Dortmund, da Alemanha. Aqui se faz necessário dizer que, até 1997, eu nunca havia ouvido falar em Borussia. Depois desse ano, nunca mais desgrudei os olhos do campeão intercontinental de 97, time que, se jogasse contra o Galo, eu torceria pelo empate. O Borussia perdeu o jogo por 1 a 0, mas deu a volta por cima no jogo de volta.


Ainda, na mesma ocasião, fui a Madri ver o Real de Cristiano Ronaldo vencer o Espanyol por 2 a 0


Coincidências da vida, cá estou eu na Alemanha justamente quando os dois representantes da casa fazem suas partidas pelas quartas de final: Borussia contra o Monaco de Jemerson e Bayern contra o Real.


Com o mesmo cachecol protegendo a goela da temperatura de um dígito, circulava faceiro por Munique, Cologne (70 km de Dortmund) e Berlin como que avisando: 'se vocês ganharem essa parada aí, nos encontraremos no final do ano!'


Borussia, Bayern e Galo em campo. Bota a cara, alemão! Botaram e saíram perdendo. Em casa. Inapelável. Assistia aos jogos - o do ex-time do Dedê e Klopp postergado em um dia, depois de uma explosão do ônibus aurinegro - e seus resultados não eram assim tão surpreendentes pra mim. Seus adversários eram do mesmo tamanho e ainda havia o fator psicológico no caso do Borussia... Eu só pensava no jogo do Galo contra os bolivianos do Sport Boys. O Galo e sua falta de atenção momentânea, de grandes jogadas e lapsos de apagão, a falta de um articulador capaz de dar velocidade ao ataque e atento à recomposição defensiva. Ah, esse time de altos e baixos...


Enfim, a segunda partida alvinegra em sua caminhada pelas Américas. 5 horas a mais em Berlin. 5 minutos de jogo pro Galo inaugurar o placar. Mais 5 para ceder o empate. Uma sequência de oportunidades perdidas de ambos os lados. A virada improvável do time de Capdevila. Uma eternidade até Fred iniciar aquela que poderá ser chamada de arrancada atleticana para o título. 4 gols. 2 a mais que C7 na mesma semana -- afinal, consideramos a diferença técnica dos adversários. 5 a 2, de virada. A última vez que o Galo venceu na primeira fase da Libertadores por esse placar foi em 2013. Se você acredita em coincidências...


Há muito o que melhorar. Se comparar aos europeus, então, há um abismo infindável. Mas há o que celebrar. Frederico, o grande! Assim como os reis na história da Alemanha, também temos um.


Bruno Cantini / Atlético
Bruno Cantini / Atlético