Domingo tem mulher no estádio e onde mais ela quiser

Como proposto no texto anterior, abrimos espaço para a atleticana que não concordasse com a postagem. Eis o texto-resposta.


Por Fernanda Soares


O desfile de apresentação dos uniformes no ano passado me incomodou.


Ou melhor, o que veio depois do desfile me incomodou. Eu passei muito tempo tentando descobrir em mim mesma porque o desfile que causou repúdio em tanta gente e não causou em mim. Ora, eu sou mulher. Eu não milito, estou longe de ser especialista, mas me identifico com a causa feminista. Entre outras, eu li Betty Friedan, Bell Hooks e, obvio, Simone de Beauvoir. Eu pensava "pô, deve ter algo errado comigo. Se é tão óbvio que o desfile foi uma afronta e eu não consegui ver, a errada sou eu".


Bem, passou. Veio o domingo. Mineirão, calor, cerveja barata e... mulheres lindas servindo à torcida. Mais repúdio, mais polêmica. E eu? Continuei sem me incomodar.


E aí eu fiquei tentando imaginar a Malala Yousafzai se revoltando com as meninas trabalhando. Com a "imagem de submissão" que supostamente passava com as modelos entregando copos cheios de cerveja. Pensei na realidade da Malala, em tudo que ela vive. E me caiu uma ficha. Eu não consegui imaginar a Malala, a Simone, a Bell ou a Betty revoltadas com isso porque o discurso delas é mais profundo. A causa que elas defendem é maior.


E eu entendi a minha tranquilidade com as modelos servindo cerveja ou desfilando de biquíni. Eu entendi que o que me incomoda mesmo são os mais de 5 mil assassinatos a mulheres por ano no Brasil, a media de 15 feminicídios diários, o fato de que 3 a cada 5 mulheres já terem sofrido algum tipo de violência em seus relacionamentos, os "mascus" agredindo a Lola diariamente, termos uma denúncia de violência contra mulher a cada 7 minutos, a opressão de verdade que, sim, existe.


E não entendi por que não falaram sobre isso desde domingo, mas repercutiram a foto da modelo servindo cerveja.


Criar esse rebu por causa de domingo diminui a causa feminista, e isso sim é uma ofensa que me incomoda. Não diminuam o feminismo, não diminuam as garotas trabalhando, não diminuam as opiniões contrárias às suas. Lugar de mulher é onde ela quiser estar: no desfile, na universidade, no estádio, defendendo tese de pós-doutorado. A mulher é livre e deve ter suas escolhas respeitadas, e não ridicularizadas num post com o argumento de que ela, trabalhando, contribui para a "máquina de exploração feminina" dando a entender que ela é digna de dó.


Isso é pequeno demais e o feminismo é enorme.