Em noite de Marcos, Atlético Goianiense bate o ‘verdadeiro Corinthians’

Gazeta Press
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Marcos & Gilvan, a dupla que resolveu em Itaquera


Na etapa final de um campeonato de pontos corridos, existe uma parcela específica de equipes que entram naquilo que podemos chamar de ‘economia de guerra’. Na economia de guerra, os países envolvidos em um conflito passam a tomar medidas de natureza extremamente pragmática, chegando a renegar alguns de seus princípios e práticas culturais para que possam alcançar os seus objetivos da forma mais rápida possível. Na atual conjuntura - e por motivos diferentes - podemos dizer que Atlético e Corinthians vivem essa mesma situação.

O Corinthians fez um primeiro turno surreal, acumulando uma quantidade de pontos que nunca aconteceu na competição. A chance de título é muito grande, mas o peso dos confrontos pelo returno ganha um outro significado. Vencer o Corinthians, independente das pretensões do adversário, se transforma em uma espécie de meta 'narcísica'. É claro que ganhar três pontos é importante para qualquer equipe. Mas agora, vencer um líder com uma poupança tão gorda, passa a ter um gosto especial.

Nesse sentido, essa meta de vencer o Corinthians é ainda maior para um time como o do Atlético Goianiense. Primeiro porque a nossa equipe sempre atuou sob a égide da ‘economia de guerra’. Começamos a competição sem equipe definida, orçamento curto e, hoje, estamos em uma situação ainda muito delicada por conta da posição na tabela. Logo, vencer o Corinthians, em Itaquera, acumula uma infinidade de significados que não se exprimiria em nenhum outro clube do Brasileirão.

Julgando a verdade dura dos números, aspirar essa vitória poderia ser apenas a utopia de um torcedor que se agarra em poucas esperanças. Contudo, vale lembrar que falamos de uma longa competição e que o Corinthians vinha de uma sequência ruim de jogos. Perdeu para o Vitória em casa e venceu a Chapecoense na base do abafa. Além disso, ainda tínhamos que levar em conta que o clube paulista vinha com uma série de desfalques que nos permitiria dizer que, ontem, enfrentamos o ‘verdadeiro Corinthians’.


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Kazim é um dos nomes que melhor representam o 'verdadeiro Corinthians'


O ‘verdadeiro Corinthians’ não tem um jogador que consiga reproduzir a inesperada boa fase do Jô. O ‘verdadeiro Corinthians’ se vê obrigado a encarar de frente as limitações de jogo de um Rodriguinho, que só consegue se impor quando atua junto aos titulares. O ‘verdadeiro Corinthians’, no tempo em que aceitava resignadamente a sua condição de pior elenco entre os grandes clubes de São Paulo, especulava sobre a possibilidade de contratar o Drogba e depois anunciava contrato com Kazim.

Combalido por tantas derrotas e contratempos, o Atlético Goianiense não teve condições imediatas de perceber que, na verdade, enfrentava o ‘verdadeiro Corinthians’. Jogou sem nenhuma pretensão de pressionar o adversário e, como o torcedor rubro-negro já se cansou de ver, teve uma aplicação tática defensiva que garantiu o empate sem gols na primeira etapa da partida. Além disso, tivemos a grata surpresa de contarmos com uma noite estupenda de Marcos, terceiro goleiro que acabou entrando para o jogo de última hora.

Ao contrário do que aparece na grande mídia, Marcos não era um completo desconhecido no interior do elenco campineiro. Nessa temporada, a instabilidade na meta atleticana rendeu muita discussão entre os torcedores do rubro-negro. Kléver começou a temporada sendo muito irregular. Felipe entrou e também expôs suas falhas. Kléver voltou, mas sofreu contusão. Felipe retoma o posto, mas acaba vendido para a Europa. Nessa, ainda que elogiado por alguns atleticanos, Marcos acaba ganhando uma oportunidade inesperada.

Ainda que enfrentando o ‘verdadeiro Corinthians’, Marcos teve que assumir uma missão muito complicada, realizando defesas que se tornavam cada vez mais difíceis ao longo da partida. No primeiro tempo, o Corinthians ameaçou mais entre os 25 e 35 minutos de jogo. No segundo tempo, após o belíssimo desvio de cabeça do Gilvan – que resultou no gol da vitória –, a agressividade alvinegra se transformou em sessão de tortura. Mas, vivendo em ‘economia de guerra’, os jogadores interditaram o jogo de todas as formas possíveis.


Divulgação/Atlético Goianiense
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'Quem ganhou em Itaquera, dá um sorriso!'


Foi catimba, faltinha e chutão para dar e vender. Não bastando isso, nossos homens de frente ajudaram muito pouco ao se proporem segurar a bola no campo de ataque. Jorginho errava passes como se não houvesse amanhã. Walter, quando não perdia a bola, não conseguia acelerar a mesma na transição ofensiva. O que restou apreciar foi um jogo de ataque contra defesa, em que o Atlético Goianiense teve que segurar as jogadas individuais de Marquinhos Gabriel e ficar atento para não ser surpreendido pelo menino Carlinhos.

Para não ficar preso nessas misérias que marcam o futebol atleticano nessa temporada, a gente se apega naquilo que foi valioso para nós. Fazer o Corinthians agonizar em Itaquera e ver nosso goleiro brilhando na estreia são aquelas coisas sobre as quais vamos ficar falando anos e anos a fio. Mesmo que não consigamos nos sustentar nessa elite desigual do futebol brasileiro, podemos adicionar a história desse jogo entre aquelas tantas que fazem do Atlético Goianiense ‘o mais querido dos goianos’.