Obrigado pelo exemplo, Abel

Gazeta Press
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Abel Braga nos mostra mais uma vez que o futebol é mais do que um jogo


A temporada do Atlético Goianiense chegou ao fim. Não foi eu em quem disse isso. Não foi nenhum comentarista esportivo que construiu essa tese. Quem fez tal afirmação foi o nosso vice-presidente e diretor de futebol, Adson Batista, ao dizer que só vai trabalhar ‘pensando em 2018’. Ainda que lógica, esse tipo de declaração mostra uma triste realidade que ronda a vida de um clube que tem simplesmente oitenta anos de história no futebol nacional.

Essa realidade tem a ver com o modelo de reconstrução do clube, concebido a partir de 2005. Naquele ano, o mesmo grupo que hoje faz a gestão da Atlético passou a assumir as principais funções no clube. Conquistamos muitas coisas, revelamos grandes jogadores e nos recuperamos de uma era obscura que se desenhou ao longo de toda a década de 1990. Vivemos uma realidade melhor, mas ainda sinto que ainda falta algo muito importante.

O algo muito importante não tem a ver só com as cifras milionárias que figuram um seleto grupo de clubes do Brasil e do mundo. Tem a ver com um sonho muito mais modesto e justo para o Atlético Goianiense. Ao longo desses quase treze anos, nos acostumamos a ver o clube como uma criança que – se não for pela ação de certos patronos – não pode vislumbrar algo de diferente para sua própria história.

Não somos uma instituição democrática e, por esse justo motivo, estamos longe de respirarmos uma cultura administrativa profissional. O grupo encastelado nessa gestão age de forma autocrática e, quando questionada, responde aos clamores da torcida da pior forma possível. Quando não somos prestigiados com um brilhante ‘Tá achando ruim? Faz melhor!’, vemos a cabeça pensante do clube jogando a toalha no meio do campeonato.

Esse tipo de comportamento mostra que a instituição e a torcida parecem ser coisas de pouca importância para nosso corpo dirigente. Estamos reféns de uma lógica em que aquele que um dia muito faz pelo clube, no outro, passa a se ver no direito de fazer e falar qualquer tipo de coisa sobre ele. Nesse cenário de terra arrasada, mesmo sendo grande nosso problema no campeonato, acredito que resta nos agarrarmos à algum tipo de obstinação.

A obstinação é fundamental em qualquer tipo de esporte. A obstinação já foi responsável por coisas incríveis. Lembremos do que foi o Brasileiro de 2009: de um lado, tínhamos um Fluminense praticamente rebaixado; de outro, um Flamengo que tinha a taça do campeonato como algo impossível. Mesmo vivendo aspirações completamente distintas, foi a obstinação que manteve o tricolor na elite e fez o rubro-negro carioca mais uma vez campeão.

Obstinação não tem somente a ver com loucura. Tem a ver com coragem e amor. Fico imaginando o que poderemos falar para João Paulo Sanches ao fim do ano. Do que vai ter valido sua gana em injetar ânimo em um grupo que estava claramente abatido? O que poderemos falar aos jogadores que, por mais que se acumulem as derrotas, jogam com vontade? Se desistirmos agora, teremos só o direito de pedir desculpas depois.

Se o torcedor ainda duvida do que a obstinação possa fazer, pense na atual situação de Abel Braga, técnico do Fluminense. Não existe campanha, planejamento ou derrota que se equipare ao desafio que esse grande homem do futebol terá que encarar ao longo desse ano, ao longo dos anos. A coragem dele deveria servir de inspiração a todos nós, que por razões muito menores, vivemos jogando a toalha por aí.

Dito isso, eu simplesmente me recuso a seguir a diretriz que nosso atual diretor de futebol resolveu adotar para o resto da temporada. E isso não tem a ver com teimosia, não é nada pessoal. Se eu não concordei com tudo que foi feito desde o começo desse ano, por que raios eu iria passar a concordar justamente agora? Entre os que se abatem na véspera e os que lutam até o fim, é melhor se inspirar nesses últimos. Obrigado pelo exemplo, Abel!