O tempo de Sanches

Divulgação/Atlético Goianiense
Divulgação/Atlético Goianiense

De interino, Sanches pode inaugurar um novo tempo no Atlético Goianiense


A saga atleticana no Brasileirão continua a ganhar contornos muitas vezes imperceptíveis aos olhares mais desapercebidos ou essencialmente focados na polaridade que divide os clubes entre “os que possuem qualidade técnica” e “os que não possuem essa qualidade técnica”. Nesse sentido, a narrativa sobre a disputa esportiva em questão fica pobre, bastante limitada. No caso do Dragão, já vivemos uma enfadonha rotina em que o nosso time fica taxado à simples condição de time já rebaixado.

É claro que esse tipo de leitura tem a sua validade e consistência. Os vários problemas do clube, os gols perdidos, os jogadores recém-chegados e a falência do projeto para o ano são os fatores principais que sustentam esse rebaixamento pré-anunciado. Se colocando em uma outra perspectiva, mais local, atenta e interessada aos meandros da equipe, penso na possibilidade de João Paulo Sanches como um técnico pelo qual poderíamos esboçar algum tipo de mudança para o ambiente e as perspectivas do time atleticano.

Não se trata de transformar nosso interino em uma resolução salvacionista para um grupo acossado no último lugar da tabela, com apenas nove pontos. A questão é perceber como ele apareceu no comando da equipe, quais foram os efeitos de suas ações e quais possibilidades que se abrem com sua ascensão à condição de efetivo. Que fique aqui bem claro que isso pode ser um caminho para a permanência na elite do futebol, mas que, ao mesmo tempo, a questão mais importante não chega a ser estar ou não jogando a série A no ano de 2018.

João Paulo Sanches sempre apareceu à beira do gramado em situações muito constrangedoras para o elenco e para a torcida. Em ambas, retornávamos de derrotas acachapantes e da saída de nossos técnicos. Na primeira atuação, fez mudanças dignas de um técnico medalhão que, ainda recém-chegado, tira peças que pareciam imexíveis e oferece uma proposta de jogo ainda não experimentada nas quatro linhas. No frigir dos ovos, para além da vitória contra a Ponte Preta, tivemos a saída de Walter e a incorporação de um comportamento mais ofensivo.

Essa fórmula foi precariamente empregada por Doriva, resultando na única vitória que nosso ex-técnico angariou nos dez jogos em que assumiu a condição de líder dessa equipe. Chegaram novas peças e, mesmo que isso parecesse uma situação de melhora, Doriva não conseguiu estabelecer os acertos necessários para que tivéssemos um comportamento mais competitivo. Após perder absurdamente para o fraco Vitória, se abriu uma grande dúvida sobre a sua capacidade de oferecer novas possibilidades de jogo para a equipe.

As partidas subsequentes vieram e as limitações criativas do técnico tomaram uma proporção absurda que, quando confrontadas, eram respondias com justificativas vagas. Ao meu ver, isso revela uma completa falta de engajamento com o desafio que lhe foi proposto no momento em que aceitou treinar o Atlético Goianiense. A demissão veio e o retorno de João Paulo Sanches acabou sendo uma reedição do que acontecera antes. Novamente ele tinha pouco tempo para treinar e lhe era exigido um outro tipo de comportamento do time em campo.

Jogando contra o Botafogo, essa outra postura acabou resultando em um desperdício de oportunidades nunca antes visto na história desse plantel. Nesse sentido, o empate com sabor de derrota não se explica somente pelos números, mas também pelo fato de estarmos em uma fase mais avançada da competição e, por esse motivo, a pressão se mostrava maior em relação ao jogo contra a Ponte. Jogamos bem, impomos nosso ritmo de jogo, mas o acúmulo de derrotas imprimiu um patente nervosismo nos pés de nossos atletas.

Vista essas duas situações, podemos notar que João Paulo Sanches conseguiu promover uma guinada no time em duas situações bastante desconfortáveis. Posto isso, acredito que a sua manutenção como técnico pode ser uma ação benéfica para essa e a próxima temporada da equipe atleticana. Surgindo como um nome nascido no interior do próprio clube, Sanches não é uma figura estranha que, seja para o bem ou seja para o mal, teria que assumir a posição de grande nome, de operador de milagres urgentes.

Conseguindo ou não manter a nossa equipe na elite do futebol brasileiro, Sanches pode ser uma oportunidade de escaparmos de uma infindável lista de medalhões que nada parecem acrescentar na história recente desse esporte. Com a justa exceção de Luxemburgo, não consigo citar outro. Sendo assim, independente do resultado obtido ao fim da temporada, ele pode alçar a condição de desconhecido que salvou uma equipe desacreditada. E, na hipótese mais realista, um bom nome para formarmos um elenco que finalmente tenha identidade.