Walter vive uma realidade inexistente

Divulgação/Atlético Goianiense
Divulgação/Atlético Goianiense

Walter possui ambições distantes daquilo que ele oferece


Ontem, Walter disse – com todas as letras – que ele não tem pretensão de permanecer muito tempo no Atlético Goianiense. Em termos reais, essa declaração deveria ter menos impacto do realmente teve, porque, na prática, o polêmico atacante disse o seguinte: ‘Eu quero cumprir o meu contrato aqui no clube para que, na próxima temporada, eu consiga um contrato mais vantajoso em uma equipe que tenha mais projeção’.

Isso não deveria ser visto com maus olhos, porque esse foi o itinerário de diversos atletas que vestiram a camisa do Dragão ao longo de sua valorosa história. Para lembrar rapidamente de um nome que melhor representa isso, pegaria o zagueiro Gil como exemplo, que hoje ganha uma grana absurda no futebol chinês e ainda é lembrado nas escalações de Tite para a Seleção Brasileira. Nesse meio tempo, cabe ainda destacar que ele fez temporadas memoráveis pelo Corinthians e, por esses motivos, vive uma situação muito privilegiada no mundo do futebol.

Mas por que o Gil conseguiu isso tudo na vida? Porque quando chegou ao time do Atlético Goianiense atuou com a mesma seriedade que manteve ao longo de toda sua trajetória. Honrou a camisa de forma exemplar e, por isso, não existe hoje nenhum torcedor atleticano que o chame de ‘mercenário’ ou de ‘traidor’. Pelo contrário, a cada desarme, a cada interceptação, tenho ampla certeza que os torcedores rubro-negros vibram com o bom desempenho desse grande zagueiro do futebol mundial.

Na prática, a ambição de Gil era a mesma ambição de Walter. Contudo, a diferença entre esses dois atletas gira em torno da seriedade e do compromisso com a agremiação a qual ele um dia representou e, hoje, Walter finge representar. Além disso, existe uma grande diferença entre a imagem que cada um desses atletas tem sobre si mesmo. Gil, pelo que joga, prova para todo mundo que gosta de jogar bola e que tem muito o que melhorar. Já Walter vive de um passado glorioso que não tem relação alguma com a sua realidade presente.


Gazeta Press
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Ao contrário de Walter, Gil sempre soube o quão importante era jogar bem pelo Atlético Goianiense



Ao crer na existência de uma realidade inexistente, Walter coleciona uma série de comportamentos e declarações que atestam seu distanciamento do mundo. Já em sua primeira entrevista coletiva, quando veio para o Atlético Goianiense, fez uma série de declarações absurdas contra o seu antigo clube. Sem a menor cerimônia, disse que teve todo o suporte necessário para resolver seu problema de peso no Goiás, mas que ele não teve a vontade de encarar aquele investimento de tempo e recursos de forma séria.

Como ele estava fazendo pouco do Goiás, nosso maior arquirrival, muitos torcedores atleticanos ignoraram aqueles absurdos que saíram da boca do atleta. Já outros acharam aquilo divertido, deixando de levar em conta que, se ele fez aquela trairagem com o time da Serrinha, poderia vir a fazer a mesma coisa por aqui. Nessas horas, lembro do ditado que o ex-presidente Fernando Collor de Melo estampou em uma camiseta à época de seu impeachment: ‘O tempo é senhor da razão.’

No caso de Walter, a ação do tempo sobre a razão dos dirigentes e torcedores atleticanos não demorou muito para vir à tona. Walter age e fala como se fosse o mesmo atleta de antes. Não tem humildade para reconhecer que ele vive um momento difícil da carreira e que jogar no Atlético Goianiense seria uma excelente oportunidade para ele recuperar o bom futebol e, assim como o Gil, buscar alçar voos maiores. Não bastando isso, sempre existiu um ‘staff’ ao seu redor para que ele continuasse acreditando em suas próprias mentiras.

Tenho muita certeza que esse comportamento errático de Walter é a soma de uma série de fatores que extrapolam questões de ordem moral. A história de vida dos jogadores de futebol, em geral, é muito sofrida e conta com uma série de contratempos financeiros e pessoais. Sofrendo tanto até chegar à categoria profissional, muitos desses acabam deixando ser derrotados por traumas e sofrimentos que se desenharam na infância e na adolescência, e que acabam marcando toda a vida do sujeito.

Apesar de acreditar que esse é o caso de Walter, isso não permite que ele faça o que quiser com aqueles que depositam confiança nele. Desde quando veio para cá, sempre acreditei que o maior problema dessa figura peculiar do futebol brasileiro não estava na barriga, mas na cabeça. Mas não adianta nada saber disso e, a partir daí, tratar esse problema de ordem psicossocial como algo menor. Sendo assim, de forma muito respeitosa, peço para que Walter procure se tratar. Pelo seu próprio bem e pelo próprio bem do Atlético Goianiense.