Atlético de Madrid: um Calderón de emoções

Para o Atlético de Madrid, a partida pouco valia. Para o Athletic Bilbao, interessava a vaga para a Europa League. Mas o que estava em jogo mesmo era a emoção.


A última rodada do Campeonato Espanhol reservou ao Atlético de Madrid também o último jogo do clube no estádio Vicente Calderón. A tarde de domingo terminou com lágrimas, coração apertado e vitória por 3 a 1. Um adeus eterno.


Nada poderia ter sido mais simbólico do que Fernando Torres balançando as redes duas vezes. De todos os jogadores em campo, El Niño talvez seja aquele de maior identificação com clube, torcida e estádio. Afinal, passou quase dez anos de sua vida entre vestiário e gramado do Calderón.


Torres marcou gols de perna esquerda, perna direita, cabeça, joelho e peito. Também deu de canela. Perdeu gol debaixo da trave. Sofreu com derrotas em clássicos, vibrou com vitórias em dérbis. Foi ovacionado, aplaudido, xingado e cornetado. Estreou, foi embora, retornou, reestreou, quase foi dispensado, ficou e agora se despediu. Passou por tudo e muito mais no sagrado verde do campo que a partir de agora é somente passado e nostalgia. Neste histórico domingo, 21 de maio de 2017, Torres ficou órfão.


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Emocionado, Fernando Torres de despediu do estádio Vicente Calderón com dois belos gols marcados


Se para Fernando Torres foi um adeus difícil, imagine para Tiago, que se despediu de uma vez só do estádio e do clube. Sem o contrato renovado, o volante português atuou pela última vez diante da torcida rojiblanca. Não deu outra: caiu nas lágrimas na ovação feita a ele depois do apito final.


Uma pena que Tiago tenha sofrido com tantas lesões e não tenha podido atuar com a frequência desejada em sua derradeira temporada. De qualquer forma, foram 227 partidas oficiais com a camisa colchonera. É o português que mais vestiu a camisa vermelha e branca do Atlético, com 16 partidas a mais que Paulo Futre, outro ícone luso da história do clube. Tiago conquistou um Campeonato Espanhol, uma Copa do Rei, uma Supercopa da Espanha, uma Liga Europa e duas Supercopas da UEFA. Sempre será lembrado. Seu tamanho não é pouca coisa. 


Ainda não foi confirmado se vai se aposentar ou se pensa ainda em gastar um pouco mais a chuteira. Mas sua história no Atlético de Madrid acabou da forma mais emotiva possível.  


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Tiago é jogado ao alto pelas mãos de seu companheiros de Atlético de Madrid


E as homenagens não pararam por aí. Também depois do final do jogo, as jogadoras da equipe feminina do Atlético de Madrid desfilaram no campo. Foram ovacionadas merecidamente. Afinal, sagraram-se campeãs espanholas no sábado, depois de vitória por 2 a 1 sobre a Real Sociedad. O título foi conquistado de forma invicta, com 24 vitórias e seis empates depois de 30 partidas disputadas. 


Divulgação/Atlético de Madrid
Divulgação/Atlético de Madrid

A equipe feminina do Atlético de Madrid foi campeã espanhola, desbancando Barcelona e Real Madrid


No final das contas, não houve uma invasão de campo no Vicente Calderón, como fez a torcida do Tottenham na semana passada diante da despedida do estádio White Hart Lane. De qualquer forma, os torcedores do Atlético puderam levar as cadeiras da arquibancada para casa. O fato já havia acontecido na partida contra o Real Madrid, mas sem autorização. Desta vez, a diretoria colchonera resolveu liberar.


Por falar nisso, aproveito o espaço para endossar a campanha "Eterno Calderón", inicativa que propõe que partes do estádio Vicente Calderón, como traves, bancos de reserva e redes, sejam doadas a clubes menores e periféricos da cidade de Madrid. Uma espécie de doação de órgãos. Como diz o slogan da campanha, uma oportunidade de ser eterno. 


Ao longo das próximas semanas, acompanharemos o processo de demolição do Vicente Calderón. Como não pode deixar de ser, também ficaremos de olho nos detalhes finais da conclusão do estádio Wanda Metropolitano, que deve estar 100% pronto para uso na primeira quinzena de agosto, quando a temporada 2017-18 se iniciará.


Abaixo, fique com alguns registros deste domingo, na última vez que a torcida do Atlético de Madrid pôde fazer sua festa nas arquibancadas do estádio Vicente Calderón.


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Antes do paito inicial, homenagem aos jogadores que foram campeões espanhois ao longo da história com o Atlético de Madrid


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O papel picado transformou as arquibancas do Vicente Calderón em um mar vermelho e branco


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A faixa na arquibancada do Atlético de Madrid traz um trecho da música "Motivos de un Sentimiento", do compositor espanhol Joaquín Sabina


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A casa pode mudar, mas o casamento entre torcida e clube nunca vai acabar no Atlético de Madrid 


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Faixa e mosaico nas arquibancas do estádio Vicente Calderón


Abaixo, a estrofe da canção "Motivos de un Sentimiento" que contém os dizeres da faixa exposta pela torcida do Atlético de Madrid na despedida do estádio Vicente Calderón, localizado às margens do rio Manzanares: 


"Ufarte, Kiko, Juninho, Ratón, Ayala, Pantic, Heredia,
Antic, Leivinha, Adelardo, Toni, Simeone, Grifa, Pereira,
Peiró, Calleja, Ovejero,
Tal y tal y un tal cabeza,
Zapatones de hortaleza,
Ben Barek y Caminero,
Paseo de los melancólicos,
Manzanares cuánto te quiero"


O Vicente Calderón já deixa saudades. A ficha vai demorar a cair!